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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Qual é a importância do Desporto?

Rui Nassalam – professor de Educação Física:
Rui Nassalam tem 36 anos e é coordenador e professor de Educação Física no Liceu Dr. Rui B. da Cunha desde 2001. Defende que “o desporto é muito importante porque nos permite descobrir e desenvolver o nosso potencial. Ajuda-nos a preparar o nosso organismo e a harmonizar o corpo e a mente”. No entanto, considera que a disciplina que lecciona enfrenta muitas dificuldades, devido à falta de materiais e de espaços apropriados para o desporto. Para além destas dificuldades, confessa que muitos alunos não compreendem a função das aulas de Educação Física e recorrem demasiado a atestados médicos, em vez de se empenharem nesta disciplina como em qualquer outra. Para finalizar, aponta para o importante papel da Educação Física, que “permite desenvolver a disciplina pessoal e o espírito de companheirismo”.

Salimatu Djaló – aluna da 7ª classe no Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha
O desporto é muito importante porque, se não o praticarmos, envelhecemos mais cedo. Na escola podemos aprender a fazer desporto da melhor forma, por isso devemos aplicar-nos na disciplina de Educação Física. Para além disso, é uma disciplina com a qual podemos reprovar de ano, caso tenhamos negativa.

Joel José da Silva – aluno da 7ª classe no liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha
Gosto de desporto, tanto na escola como na rua, a jogar com os meus amigos. Com treino, consigo jogar com mais facilidade e com o corpo muito leve, por isso é que a disciplina de Educação Física é muito importante para mim.

Amadú Seidi – futebolista:

Para Amadú Seidi, nascido a 29 de Julho de 1987, o desporto é uma paixão. Actualmente é médio ofensivo e capitão do Sporting Clube de Bissau. Começou a sua carreira desportiva em 2002/2003 na UDIB (União Desportiva Internacional de Bissau). Em 2003/2004 começou a jogar no Porto de Bissau, onde foi considerado o melhor médio, até 2004/2005. Devido a uma lesão no braço, ficou sem jogar durante uma época, apesar de ter continuado a praticar Futsal no bairro de Belém. De 2006 a 2008 jogou no Futebol Clube de Bolama e joga actualmente, desde 2008, no Futebol Clube de Bissau. Orgulha-se de já ter conquistado vários campeonatos, por exemplo contra a equipa de Nema e de Diner (em Gabú) ou contra a equipa de Barcelona de Afia (em Bissau). Considera que o maior desafio na sua carreira foi jogar com a selecção de Angola nos Jogos da Lusofonia (Brasil) e, mais recentemente, conquistar o título de campeão nacional pela UDIB. Confessa sentir-se mais motivado e com mais energia quando está a ganhar do que quando está a perder, apesar de se esforçar em qualquer circunstância. Reconhece que é difícil ser-se desportista na Guiné-Bissau e desabafa: “tentamos por gosto”. A paixão pelo futebol levou-o a abandonar a escola quando frequentava a 8ª classe, mas pretende voltar a estudar.

Por: Mário Ié, Dauda Pires, Djamila Vieira, Ocante Ié

Música. Dú das Mágoas e Bonizande

Mamadú Sana Nalana nasceu a 29 de Junho de 1985 e mora no bairro de São Vicente de Paulo. Começou a cantar vários géneros musicais em 2003. Canta diferentes estilos, como Gumbé, Zouk, AMP, Reggae, baladas... dependendo da inspiração do momento e também atendendo à procura do mercado. Não tem nenhum disco editado, mas já fez 4 maquetas, numa das quais está incluído o sucesso “kombosa bo kruskaras”. Diz-nos que quer evoluir e aprender com os mais experientes. Já terminou a 11ª classe, no Liceu 23 de Janeiro e agora vai dedicar-se à música. Neste momento está a aprender a tocar guitarra no Centro Cultural Português. Na realidade confessa que ainda não se sente realizado com a música, porque há muito para aprender, mas sabe que vai estar na música para o resto da vida. Lamenta o facto de a cultura da Guiné não ser respeitada, mas acredita que, no futuro, será uma mais valia para a Guiné-Bissau



Bonizande Aissom Sanca nasceu a 5 de Outubro de 1989. Terminou a 11ª classe em 2008, no Liceu Dr. Agostinho Neto, e tornou-se especialmente conhecida quando ganhou o prémio nacional de Rainha do Carnaval de 2008, embora já tivesse começado a carreira de cantora em 2005, tendo editado a primeira maqueta em Agosto de 2006. Este trabalho foi entretanto promovido pelas rádios nacionais. No entanto, admite que é difícil vender este tipo de produtos e que é preciso ser persistente para entrar no mundo da música. Mas Bonizande sabe que nunca vai desistir do seu sonho, que é cantar. Gosta especialmente de cantar ritmos tradicionais, como Gumbé ou Broska, pois foi a ouvir e a dançar estes géneros que cresceu. Os principais obstáculos ao seu desenvolvimento como cantora são financeiros. Uma das coisas que Bonizande aprecia fazer são os trabalhos que faz com outros artistas, pois considera que também aprende quando canta com eles. Uma das mensagens que considera importante fazer passar é que a música pode contribuir para acabar com o ódio e com a violência, apelando à paz e à reconstrução de uma nova Guiné-Bissau. É preciso acreditar no diálogo; só assim se pode impedir que o povo morra de fome.

Por: Mário Ié e Domingos Fernandes
(foto de Bonizande cedida pela entrevistada)

Cólera

Cólera
Esta doença identifica-se perante uma diarreia aguda causada por uma bactéria (Vibrio Cholerae) que se multiplica rapidamente no intestino. Esta bactéria provoca uma diarreia que pode ter tal intensidade que se torna mortal (pelo que se deve ir logo ao médico quando detectados os sintomas). A cólera transmite-se por ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes ou vómitos de outros doentes.

Como se previne?

Ingerir água tratada é a recomendação para que a doença não se torne epidémica (em casa, pode ser fervida ou desinfectada com umas gotas de lixívia). As mãos devem ser lavadas com sabão, especialmente antes das refeições e depois de ir à casa-de-banho. Os alimentos devem ser muito bem lavados antes de ingeridos.

Para além dos cuidados básicos de higiene individual, existem medidas colectivas que previnem a cólera: oferta de água potável em boa quantidade e qualidade; destino e tratamento adequado de esgotos; destino e recolha adequada do lixo; manejo adequado dos cadáveres; controlo dos portos, aeroportos e rodoviárias.

Pesquisa feita na Internet por
Josefa Bassim e Midana Sampa

Paludismo

O que é? Como se transmite?

O paludismo é uma doença parasitária potencialmente mortal, transmitida por mosquitos. Pensava-se antigamente que a doença provinha de terrenos pantanosos fétidos, daí o nome 'malária' (mau ar). Em 1880, descobriu-se a verdadeira causa do paludismo — um parasita unicelular denominado plasmodium. Mais tarde descobriu-se que tal parasita é transmitido de uma pessoa para a outra através da picadela do mosquito fêmea do género Anopheles, que necessita de sangue para os seus ovos. As larvas desenvolvem-se em águas paradas e a prevalência máxima ocorre durante as estações de chuva abundante. Actualmente, cerca de 40% da população mundial — principalmente nos países mais pobres do mundo – corre o risco de contrair paludismo. Muitas crianças que sobrevivem a episódios de paludismo grave podem sofrer de incapacidades de aprendizagem ou lesões cerebrais. As mulheres grávidas e os bebés são especialmente vulneráveis ao paludismo, o qual é uma causa importante de mortalidade perinatal, baixo peso à nascença e anemia materna.

Quais são os sintomas?

O parasita do paludismo penetra no hospedeiro humano quando um mosquito fêmea Anopheles pica para se alimentar de sangue. Os sintomas do paludismo aparecem cerca de 9 a 14 dias depois da picada do mosquito, embora seja variável segundo as diferentes espécies de plasmódios. Geralmente, o paludismo provoca febre, dores de cabeça, vómitos e outros sintomas semelhantes aos sintomas da gripe. Não havendo medicamentos disponíveis para tratamento ou se os parasitas forem resistentes aos medicamentos, a infecção pode progredir rapidamente e pôr a vida em perigo. Infectando e destruindo os glóbulos vermelhos (anemia) e bloqueando os vasos capilares que irrigam o cérebro (paludismo cerebral) ou outros órgãos vitais, o paludismo pode ser mortal. Ainda não há uma vacina eficaz. A prevenção baseia-se, sobretudo, na implementação de medidas que proporcionem a eliminação dos mosquitos Anopheles.

Como se previne?

· Evitar e eliminar águas paradas;
· Afastar-se de zonas pantanosas, especialmente a partir do anoitecer;
· Usar repelente;
· Isolar bem portas e janelas;
· Dormir sob redes mosquiteiras (principalmente mulheres grávidas e crianças até 5 anos);
· Cumprir o tratamento preventivo (medicamentos anti-maláricos) conforme indicação médica;
· Colaborar com os responsáveis pela pulverização nas comunidades;
· Criar saneamento adequado.

Josefa Bassim e Midana Sampa

Anunciador participa em concurso de jornais escolares

Editorial
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Hesito em referir que chegámos ao final de mais um ano lectivo, embora este seja precisamente o último jornal de 2008/2009. O jornal Anunciador teve em Fevereiro a primeira edição deste ano, resultante de um trabalho começado em Outubro. Foi uma edição dedicada à mulher guineense, que deu especial atenção à relação do tema com a educação e a escola. No final de Abril fizemos uma nova edição, com a participação da direcção do liceu, factor que muito nos agradou, pois um dos objectivos traçados para este ano era envolver mais elementos da comunidade escolar. A edição de Abril foi uma edição especial, dedicada ao IV aniversário do nosso liceu. Para a última edição, de Junho, reservámos o tema “Porque é que a política também é para nós?”, indo ao encontro do concurso de jornais escolares promovido pelo jornal português Público.
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Embora a questão a concurso – “Porque é que a política também é para nós?” – já tivesse sido abordada de forma implícita nas edições anteriores, nesta os alunos do Clube e Atelier de Jornalismo empenharam-se mais objectivamente no seu tratamento. Contudo, permitam-me que diga que esta tem sido, no nosso contexto, uma “questão do diabo”. Não é função do jornalismo reflectir e informar sobre o meio envolvente? Mas que trabalhos de jornalismo escolar podem ser feitos, alusivos ao tema em causa, num contexto em que o Presidente da República, o Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas e alguns ex-ministros foram contínua e brutalmente assassinados e outros espancados, na pequena cidade em que todos vivemos, trabalhamos e estudamos? E que trabalhos de jornalismo escolar podem ser feitos num contexto em que o ano lectivo tem sido submetido a prolongadas greves e boicotes, devido a repetidos atrasos no pagamento de salários, inviabilizando a vida normal de qualquer estudante? Que tipo de reportagens e de entrevistas podem ser feitas?
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Quando abordámos a comunidade escolar, poucos quiseram falar, mas uma das alunas que entrevistámos não hesitou em dizer-nos: “quem se levanta para reivindicar os seus direitos, morre”. Talvez sejam “mitos” ou talvez seja apenas o espelho de uma baixa auto-estima popular. Talvez… A incerteza explode em cada palavra que ouço e leio destes alunos, na mesma medida em que a esperança e a fé. Todavia, para alguns a necessidade de se questionarem e de se expressarem fala mais alto: o que significa tudo isto que se passa à nossa volta? Apontam caminhos, lançam ideias, criticam a amoralidade dos actos bárbaros a que assistem e sabem que não é isso que querem para si e para os seus filhos. E falo em filhos sem pudor, que na Guiné-Bissau ter filhos, mesmo na adolescência, é algo tão natural como namorar. Mas deixo esta última problemática para uma próxima edição...
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No início deste mês de Junho, professores e alunos voltaram à escola. Porém, hoje, enquanto procuro as palavras para este editorial, chove torrencialmente e talvez continue a ser uma incerteza que o ano lectivo tenha continuidade nos quatro maiores liceus de Bissau. Talvez… É por esta incerteza que hesito em dizer que chegámos ao final de um ano lectivo que, afinal, pode não ser consumado.
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Susana Fonseca

Porque é que a política também é para nós?

A política está ligada à liberdade e as duas estão associadas à capacidade do homem agir em público, que é o local original da política. A política é um esforço” para fazer reinar a ordem e a justiça, assegurando o poder, o interesse geral e o bem comum contra a pressão das reivindicações particulares. É também um meio de realizar a integração de todos os indivíduos na comunidade, de forma a obter a “cidade justa” a que aspiraram muitos pensadores. Para Aristóteles, por exemplo, a tarefa e o objectivo da política é a garantia da vida no sentido mais amplo, ou seja, está directamente relacionada com a busca da felicidade.
Se considerarmos a política como integração numa sociedade, a acção política está presente em todos os momentos da nossa vida, num âmbito mais ou menos privado ou mais ou menos público, quando nos relacionamos em família, com as pessoas do bairro ou da escola… somos parte integrante da “Cidade”. Enquanto cidadãos, pertencemos a um Estado e temos que fazer escolhas: podemos deitar lixo nas ruas ou não; podemos participar na associação do nosso bairro ou não; podemos trabalhar como voluntários por uma causa que acreditamos ou não; podemos até votar num político ou não vota, pois a própria abstenção é uma tomada de posição, que influencia em tudo o que acontece à nossa volta. Mas, se quisermos ter uma posição mais activa e responsável, que dê real significado à política, devemos, no mínimo, inteirar-nos dos diferentes programas políticos, porque somos nós os eleitores dos que vão chegar ao poder. Seria mau deixar à sorte a escolha do nosso futuro; para além de que o poder que tem por base o povo é o mais forte.
A política que esquece o povo e que consiste apenas em troca de insultos e intrigas, que pretende apenas o poder e o lucro, ou pior, a política que oprime o povo e não considera as suas escolhas não pode ir longe. Não podemos deixar que isto aconteça, temos que assumir que a política também é para nós, jovens e cidadãos comuns, porque está nas nossas mãos procurar o melhor para o nosso país. No futuro poderemos mudar o rumo das coisas, pois se tomarmos “o poder com a força do povo, a força do povo prevalecerá” e afastará a “força da bala”, como refere o cantor e músico guineense Zé Manel. Mas será que todos temos consciência da importância que cada um de nós desempenha?
Numa altura em que a Guiné-Bissau exige de todos uma reflexão sobre a política e sobre o futuro, saímos à rua para saber o que têm a dizer professores, alunos, jovens, enfim, os cidadãos comuns sobre o porquê de a política também ser para nós.

Qual é a importância da política?
Que dificuldades se podem colocar à política?
Considera que o nível de escolaridade da população pode ter influência na política?
Que papel têm os jovens na política?

António Pedro Barreto – professor de Educação Visual:
“A política permite-nos gerir um Estado. Os jovens devem ter um papel político e unir-se com objectivos comuns que ajudem toda a comunidade. Podem, por exemplo, criar associações que lhes permitam agir. As desvantagens da política têm a ver com o facto de existirem diferentes classes sociais. Quem é escolarizado faz melhores escolhas, quem é analfabeto limita-se a entrar na carruagem.”

Anita Brandão da Silva – professora de Inglês:
“A política é importante porque permite mudar muita coisa, particularmente num sistema democrático que dê a toda a gente a oportunidade de se expressar livremente. Por vezes, os políticos decidem fazer uma política sem bases e isso frequentemente traz complicações para a sociedade.
Os jovens são mais instruídos, pelo que devem contribuir para uma educação cívica da comunidade, ajudando as populações a compreenderem os programas apresentados pelos políticos.”

Aladje Dembo Jaquité – estudante do o 4º ano de Direito:
“É por meio da política que gerimos a coisa pública, que desenhamos tipos de desenvolvimento e que estabelecemos boas relações externas com os demais países do mundo. Mas, quando se fala de política no contexto guineense, a política está banalizada, porque é feita por pessoas que muitas vezes não conhecem a sua finalidade. Para além de que os militares têm uma intervenção no contexto político que gera convulsões. Por outro lado, a Guiné-Bissau tem condições adversas à afirmação política dos intelectuais. Nas campanhas pré-eleitorais, o povo dá atenção a questões que não estão relacionadas com a política, mas com a vida pessoal e social dos candidatos.
O papel dos jovens na política não é aquele que deveria ser, devido ao desconhecimento da História do nosso país e, por outro lado, ao frágil funcionamento das instituições do Estado. Os jovens vão atrás daquilo que ouvem dos políticos, sem procurarem ter uma opinião formada sobre vários aspectos da vida política, sendo que, depois das eleições, são os primeiros a terem as expectativas frustradas. Também não é garantido que a ascensão dos jovens na política, mesmo com elevada formação, possa mudar o cenário político do nosso país, até porque nada indica que as novas gerações sejam menos corruptas do que as anteriores. Ser escolarizado não significa ser bem formado. É preciso apostar na escolarização, mas sobretudo na educação cívica.”


Djenabu Seide – estudante da 8ª classe :
“Para mim, a política consiste na discussão de ideias que levam ao desenvolvimento de um país. No entanto, na Guiné, a política traz muitos problemas. Quem se levanta para reivindicar os seus direitos morre.
Acho que saber ler e escrever contribui para o desenvolvimento da sociedade. Mas penso que um jovem não se deve meter na política, porque, na Guiné, a política é muito difícil.”

Djibril Candé – professor de Biologia:
“A política deve facilitar a vida das pessoas, nomeadamente no desempenho das suas funções. Mas, na Guiné, as pessoas não compreendem o que é a política. É por isso que quem entra na política dizendo a verdade acaba por se dar mal.
Os jovens devem intervir conscientemente na manutenção da paz e reconciliação do país. Claro que o nível de escolaridade das pessoas influencia muito as suas escolhas, se analisarmos o facto de quase trinta por cento dos votos serem nulos, percebemos que isso acontece porque as pessoas não sabem ler.”


João da Silva Cá – professor de Matemática :
“A política, na antiga Grécia, tinha como objectivo original organizar e construir um país em prol do desenvolvimento do povo. Neste contexto tem grande importância.
Infelizmente, na Guiné-Bissau, os sistemas políticos que temos tido nestes últimos séculos não são sistemas políticos propriamente ditos. Actualmente, vemos muitos altos cargos do Estado a serem ocupados por analfabetos, enquanto os intelectuais que estudaram ficam de fora. Esta é uma realidade absurda, se tivermos em conta que o objectivo é desenvolver e organizar um Estado. O maior problema que se verifica na Guiné é o elevado nível de pobreza, de modo que parece não existir consciência nas pessoas. Com tão grandes dificuldades na vida é muito fácil uma pessoa ser manipulada, de forma injusta. A camada juvenil tem um papel muito importante a desempenhar na política, no sentido de mudar a mentalidade dos governantes, de alertar para os seus direitos, de construir e desenvolver o país em prol do bem-estar comum.”

Gueri Gomes Lopes – estudante no 3º Ano de Administração:
“Creio que a política tem grande importância para um país e para a sociedade em geral, na medida que só através dela podemos desenvolver esse mesmo país ou sociedade. Se não for entendida a razão da sua existência, a política traz sempre confusão entre os grupos activamente implicados, acabando por prejudicar quem deveria beneficiar dela.
Os jovens devem ter um papel relevante, na medida que devem sensibilizar a família e a comunidade para que não façam as suas escolhas por engano.
O nível da escolaridade influencia muito as escolhas da população, na medida em que permite avaliar um projecto de um determinado político. Quando as pessoas têm baixos índices de escolaridade, muitas vezes baseiam as suas escolhas em critérios de etnia, parentesco ou amizade.”

Texto de: Dauda Pires
Entrevistas feitas por: Josefa Bassim, Midana Sampa, Justino Ampanail,
Ocante António Ié, Telesfora Salvador, Justino Yé e Abrão Nanque

Viagem a Kansala

Telésfora Salvador


Uma vez na minha vida tive a oportunidade de conhecer um espaço sagrado, situado na zona de Gabú, mais concretamente em Kansala. Este local foi palco das históricas lutas guerreiras entre fulas e mandingas, decorridas por volta do século XVIII, no Império de Gabú, que era anteriormente uma célebre região do Império do Mali. Embora já tenham passado muitos anos, décadas e séculos, há quem ainda se depare com vestígios de ódio, que ainda acendem discussões. Essas guerras longínquas sacrificaram muitas vidas e acredita-se que os restos mortais dos que morreram continuam espalhados pelo local, daí o respeito exigido aos que visitam Kansala.
Durante o percurso até Kansala observei muita coisa, mas o objectivo era chegar ao local para realizar o desejo de conhecê-lo. Neste local, conheci a casa do lendário governador mandinga Mansa Djanki Walle e pude falar com um dos seus descendentes, que foi quem me conduziu propriamente ao local sagrado. Neste local árido e infértil, destacam-se dois poilões (espécie de árvores de grande porte) que, segundo o nosso guia, outrora foram gente, um deles uma mulher e outro um homem. Diz-se que pela força do amor se transformaram em poilões e escaparam ao incêndio suicida de Mansa Djanki Walle. Este governador preferiu incendiar Kansala e o seu povo em vez de se submeter aos fulas. Kansala é visitada por pessoas que querem pedir um futuro melhor, deixando as suas ofertas junto daquelas árvores e de umas pedras eminentes que sobressaem na zona.
Kansala, embora receba o culto de alguns, é um local histórico abandonado, à semelhança de muitos outros locais na Guiné. Mamadú Walle, o nosso guia e descendente do lendário governador mandinga, tem o sonho de que um dia haja um museu regional que não deixe esquecer a história do seu povo. Infelizmente a História da Guiné tem sido esquecida pelos nossos governantes, o que trará perdas à identidade do povo guineense e africano. A política é também, ou deveria ser, fundadora da nossa identidade, da identidade de todos nós. Seria bom que as questões do nosso património e da nossa História não fossem esquecidas e tivessem lugar nos programas políticos. Também os jovens podem ser sensibilizados e mobilizados para iniciativas nesta área, já que são eles os guardiões do futuro.

Porque é que a política também é para nós?

Justino de Deus Yé

A política é para nós porque somos nós, os cidadãos, que temos que saber o que queremos no futuro e o que não queremos. Temos que nos sensibilizar uns aos outros para nos afastarmos dos principais problemas da nossa sociedade: a droga e a discriminação social, étnica e cultural. A mentalidade tem que mudar, temos que nos unir contra a guerra e contra a violação dos direitos humanos. Cada qual deve ter um papel para pôr em prática, neste esforço comum de desenvolvimento da sociedade.
Uma sociedade sem ordem, onde cada um faz o que quer, sem respeito pela lei e pelo Estado, é uma sociedade caótica. Uma nação é formada por um conjunto de pessoas, é por isso que todos nós temos que pensar e fazer uma reforma moral radical. Se a política é a arte de governar uma nação, devemos nós saber governar-nos a nós mesmos, ser maduros e respeitosos, sem esquecermos que, se não vivermos a política, então a política não existe.

Justino Ampanail

A Guiné-Bissau é um país cheio de paisagens e de recursos naturais que a podem transformar num paraíso da costa ocidental de África. Este país tem terras férteis e pantanosas, boas para a produção agrícola, e tem riquezas marítimas e florestais em grande escala. Pergunto: porque é que a Guiné, com estas propriedades, não assume o seu papel a fim de encontrar o rumo do desenvolvimento? Creio que, se os nossos governantes apostassem na riqueza do país e pensassem no seu desenvolvimento, a Guiné poderia ser aquilo que todos nós esperamos e desejamos.
Porém pensar no desenvolvimento da Guiné é, primeiramente, pensar na educação, que é o sector básico e primordial para o desenvolvimento de um país. Claro que o meu desejo é ver a Guiné com boas condições na saúde e na agricultura, com electricidade e sem problemas de pagamento de salários, mas antes de tudo isso é essencial e primordial a educação. Nós não podemos pensar no desenvolvimento sem termos quadros formados: médicos, engenheiros e todo o tipo de técnicos, que são fruto da educação. Talvez este enorme atraso no progresso do país tenha a ver precisamente com a falta de quadros competentes para pensarem a Guiné.
Os problemas castrenses também contribuem muito e de forma directa para o nosso atraso, coisa que é lamentável. E os guineenses provavelmente não merecem este sacrifício. A Guiné tem muita coisa que a natureza lhe ofereceu e o que nós, de facto, deveríamos estar a fazer era cuidar desta riqueza para o nosso bem comum. Nesta óptica, é preciso pegarmos no nosso orgulho e espírito de patriotismo e começarmos a pensar na utopia da Guiné, transformando-a na mais rica cidade sub-regional. Contraditoriamente, e apesar da crítica situação económica e política do Mundo e em particular de África, os governantes continuam a apostar em argumentos e atitudes políticas que mais parecem propaganda, sem quaisquer objectivos que reflictam a modesta realidade em que vivemos. Na Guiné, a actual situação política em que se vive é completamente alarmante, feita de intrigas, inveja, egoísmo, ganância e vinganças, denegrindo a imagem do nosso país e do nosso povo.
A Guiné não merece este sacrifício todo, não pode continuar nesta situação de intensa conturbação política, com sucessivos actos bárbaros e terroristas porque, ao fim e ao cabo, a população civil é que acaba por pagar tudo isto. Então, talvez o povo guineense tenha que rezar a Deus para que haja verdadeira e duradoura paz e fraternidade entre todos. Vamos esquecer tudo o que passou e vamos unir-nos para edificar um elo único, olhando para o futuro da Guiné, preparando assim uma fortuna para a geração vindoura.

As "engenharias do desenrasque" no ensino

Desde os anos 90 que o sector do ensino da Guiné-Bissau se tem vindo a deteriorar. Lamentavelmente, a partir do ano de 1994, depois das primeiras eleições multipartidárias, o país vem conhecendo “engenharias de desenrasque” em termos de funcionamento das aulas. Devido ao aumento de matrículas nas escolas e na tentativa de evitar que alguns alunos ficassem de fora, aumentaram os turnos lectivos de 3 para 4 turnos (1º turno – das 7h00 às 11h00; 2º Turno – das 11h00 às 15h00; 3º turno – das 15h30 às 19h30; 4º turno – das 20h00 às 23h30). Aparentemente era a saída possível, mas, como consequência, deu-se uma acentuada falta de professores para cobrir todos os turnos. Como alternativa, os alunos finalistas (11ª classe) foram adoptados como professores, juntamente com os alunos que acabavam a formação na Escola Superior de Formação de Professores “Tchico Té”. Esta medida de recorrer aos alunos finalistas para ensinar tornou o ensino pedagogicamente frágil, fenómeno agravado pela falta ou inoperância da inspecção do Ministério para com a educação, para com a escola e para com os professores nas salas de aulas.
O conflito militar de 7 de Junho de 1998, para além de ter danificado muitas infra-estruturas escolares, veio aumentar a debilidade do sistema de ensino. Esta debilidade foi agravada pela falta de pagamento de salários, havendo inclusive um ano lectivo anulado, em 2001/2002.
No ano lectivo 2006/2007, por ocasião da queda do governo constitucional, os professores foram afectados pelo aumento de carga horária, às ordens do Ministério da Educação Nacional e Ensino Superior e com apoio sindical. A medida seria, alegadamente, para poder afastar os professores que trabalhavam em regime de contratação. Mas, na verdade, esta situação veio complicar a saúde dos professores, que esforçam a voz durante muitas horas em salas sem portas nem janelas, inapropriadas portanto para optimizar o som e a atenção dos alunos. Para além disto, muitos professores tiveram que preencher horários de dois turnos para satisfazerem a carga horária exigida, facto que teve consequências negativas também ao nível do tempo disponível para preparação das aulas e avaliação.
Já este ano lectivo, em 2008/2009, para além de as aulas terem tido início com 3 meses de atraso, a partir das festas do Carnaval temos assistido a paralisações constantes, devido aos casos de 1 e 2 de Março (as mortes do Chefe Maior General das Forças Armadas, Tagmé Na Waié, e do Presidente, “Nino” Vieira). Para além destes casos, assistimos, mais recentemente, às paralisações promovidas pelos professores dos quatros maiores liceus do país, devido à falta de pagamento dos salários. Agora pergunto: será que o governo não deveria ter a coragem de dar como nulo este ano lectivo? Qual é a “engenharia” a que vão recorrer desta vez para salvar o ano?
Parece-me que devemos ter a coragem de parar para pensarmos no que é que queremos para a educação dos nossos jovens e em especial para o sector do ensino.

Por: Cirilo dos Santos (professor de Filosofia)

terça-feira, 16 de junho de 2009

As crianças da Guiné-Bissau...

Crónica de Amadú Dafé

As crianças da Guiné-Bissau são muito corajosas e batalhadoras. Trabalhar e só depois brincar faz parte, para eles e para os seus educadores, de uma reciprocidade indispensável a uma boa educação. Aprendem muito cedo que a vida é um mar intransitável que invalida esforços e esperanças, pelo que lhes resta respeitar e obedecer aos outros, especialmente aos mais velhos e, sobretudo, aceitar as condições económicas em que vivem. O respeito pelos mais velhos é a conduta de base da educação das crianças e aprender a trabalhar ainda muito novo e a obedecer cegamente às ideias dos velhos é a concepção básica para a obtenção de um futuro melhor. Por isso, elas são obrigadas, por conduta, a trabalhar com responsabilidade e consciência firme e ainda são obrigadas a submeterem-se aos mais velhos, como forma de preparar melhor a sua vida.
Na Guiné-Bissau, o trabalho de crianças é natural e, talvez por ser prático, é bem visto. A grande maioria dos educadores domésticos, para educar melhor, tem que fazer referências às crianças vizinhas que trabalham muito. Tratam com mais carinho e zelo as crianças que se empenham muito no trabalho. Diz-se que uma boa uma menina é aquela que, ao levantar-se da cama, se preocupa antes de tudo com a vassoura para varrer a casa, depois com a água para encher o pote e para lavar as tigelas (louça) e só depois é que cuida de si própria, lavando-se e tomando o pequeno-almoço para depois brincar. Isto é eterno na mente das meninas, mesmo estando hospedadas noutra casa. E diz-se também que um bom menino é aquele que procura lenha para a cozinha da casa, segue o pai à horta e, quando mandado, faz o que lhe é dito sem reclamações ou murmúrios. É com esta mente que crescem. É dentro desta sociedade que representam aquilo que são. As crianças são realmente uma gota fria de lágrimas inocentes, que chora sem saber porquê. São das sensações de frio mais serenas, porque tudo isto se passa, não em complemento da escola e da brincadeira, mas, muitas vezes, em vez da escola e da brincadeira. Pior ainda, há casos em que os filhos são “expulsos” de casa pela manhã e só podem regressar quando arranjarem uma determinada soma de dinheiro. Às vezes levam algo à cabeça para venderem, outras vezes apenas uma lata e pés descalços…


Na Guiné, vê-se em cada aurora e em cada poente, meninas a levar à cabeça, protegendo-se com um paninho enrolado – chamado em crioulo ordidja –, baldes de água que apanham nos poços poucos afastados das suas moradas, para encherem os potes ou para os trabalhos de casa. Vemo-las ainda, com olhos impotentes, nesses mesmos períodos, a varrerem as ruas com muita pressa, sussurrando melodias suaves, como se fossem o responsável pela casa. Vê-se igualmente, no crepúsculo, meninos e meninas em grupo a caminho das hortas e à procura de lenha para as cozinhas das casas. Depois, em casa, vêem-se as meninas na cozinha soprando para que o fogo arda fortemente e lhes permita acabar de cozinhar rapidamente para arranjarem tempo para ir brincar com as colegas. E vê-se tudo isto com alegria e paz. Vê-se nelas a vontade e coragem de trabalharem com responsabilidade, o amor e orgulho por aquilo que são. São, mais uma vez, a alegria fria e a pacificidade do mar. São ainda para os adultos o meio de espairecer. Quando trabalham, encantam os educadores; quando brincam, alegram todo o mundo. As diversões das crianças, nas horas que sobram do trabalho, fazem a paz no país e animam o ambiente ao seu redor.
As crianças da Guiné não anseiam por férias, como noutros países, porque lhes está reservado o trabalho. Anseiam pela escola! Mas este ano, a muitas crianças e jovens, a escola foi-lhes negada durante quase todo o ano lectivo. Entre greves e boicotes, perderam a noção dos tempos escolares e já não insistem nos quilómetros de percurso até à escola, sob o sol e a fome, para esperarem em vão pelos professores. Agora esperam apenas pela época das chuvas que, por entre as tarefas habituais, lhes desperta alegria e esperança. Quando chove, saem a correr debaixo das chuvadas, cantando tchuba tchubi dam pano branco, pedindo a paz. Sob a noite de luar, brincam, em grupos, nas ruas, ao toca palmo e fazem o jogo de serce-serca, quilá-quilá. À tarde, na terra húmida, os rapazes jogam ao berlinde ou juntam-se em círculo para jogarem ao nventu ou palpita de cara/coroa. As raparigas arriscam na terra o jogo da malha, do surumba-surumba, trinta e cinco, etc. Com as chuvas e a terra molhada, passa-lhes a vontade de voltar à escola e aos cadernos.
Já é um hábito as aulas começarem em Janeiro, em vez de Outubro. Este ano, acrescem as paralisações por parte dos professores, que reivindicam cinco ou seis meses de salários em atraso. Fala-se que este ano lectivo será compensado, prolongando-se as aulas pela época das chuvas… Porém, as infra-estruturas não têm as mínimas condições durante as chuvas. Pais e crianças acabam por perder a paciência e o amor à escola. Ao invés da delinquência e do vandalismo, os pais preferem inserir os filhos no habitual esquema do chamado “trabalho infantil”, evitando males maiores de que ninguém parece querer falar. Não é a solução, mas sem evoluções no ensino, as alternativas são talvez duvidosas ou, na opinião de muitos, inexistentes…
Ainda assim, é grave, em pleno século XXI, assistir-se ao trabalho de menores. A tendência é associar estas práticas a sociedades atrasadas. Se fosse possível substituir o gosto e o orgulho perante o trabalho infantil, pelo gosto e pelo orgulho perante a educação científica, seria melhor o futuro das crianças. Mas, para que isso seja possível, o sector do ensino e o nível de vida da população têm que melhorar. Uma criança sem escola não conhece os seus direitos nem deveres, só faz aquilo que lhe disserem que é melhor, com medo de atrapalhar o seu futuro. E uma pessoa adulta e com fome não se lembra dos direitos de ninguém e fica mais violenta e corrupta.

Como acabar com o fenómeno dos talibés escravizados?

Professor do Alcorão, Tcherno Alfa Amadú Mutaro Djaló, nasceu em 08 de Maio de 1973, no Sector de Mansoa, Região de Oio (Guiné-Bissau). É muçulmano de pais muçulmanos. Por motivos económicos e porque a educação religiosa também era prioritária, deixou os estudos oficiais com a 6ª classe, no ano lectivo de 1990/1991. Viveu a maior parte da sua vida em Mansoa, onde se encontra a residir neste momento. Aprendeu o Alcorão e as suas interpretações na Escola Corânica de Mansoa, fundada pelo Mestre Tcherno Djau Djaló, pai do Ustaz Aladje Abubacar Djaló que foi o seu professor. Terminou os estudos do Alcorão em Abril de 1992, obtendo assim o título consagrado de Tcherno (que significa, na língua fula, “mestre” ou “professor”), que lhe permitiu abrir uma outra escola do género em 1999, em Ingoré, a pedido dos muçulmanos locais e recomendado pelo seu professor. Actualmente conta já com seis anos nesta actividade. De regresso à terra natal, para ajudar o mestre na escola, exerce agora a função de porta-voz da Mesquita Dáira Ahlul Fadáh, ao mesmo tempo que cuida da sua família.



A: Tem dado alguns anos da sua vida à religião como professor. Orgulha-se disso?
Alfa Mutaro: Orgulho-me muito. Tenho feito isto com grande agrado. Sinto que tenho dado uma contribuição preciosa à religião e isto porque os ensinamentos do Alcorão deixam qualquer pessoa que os adquiriu com muita fé e muito carinho, pela sua cultura e pela sua pátria. As pessoas também ficam com a consciência de que devem dar, de algum modo, alguma contribuição para a sua religião.

A: Ensinar o Alcorão é obrigatório para qualquer muçulmano ou é só para aqueles que têm esse dom ou domínio?
Alfa Mutaro: De certa forma é obrigatório. Por exemplo, aqueles que não reúnem condições para ensinar devem motivar e encaminhar os mais novos, sob a sua responsabilidade, a irem aprender. Só o professor não pode fazer tudo, portanto os pais e encarregados da educação também têm um papel necessário. Mas ser professor é uma obrigação para aqueles que reúnem condições e habilidade de transmitir os conhecimentos que adquiriram.

A: Oficialmente a lei islâmica tem uma posição sobre a formação?
Alfa Mutaro: Tem sim, porque o Mensageiro de Deus, o Profeta Maomé, diz que adquirir conhecimentos básicos no Islão é obrigatório para todos os muçulmanos e muçulmanas. Diz ainda, numa mensagem a todos os muçulmanos, para irem nem que seja à China à procura de conhecimentos.

A: Revelou-nos que abandonou a escola cedo. Gostaria ainda de aumentar o seu nível de escolaridade?
Alfa Mutaro: Gostaria muito. Aliás, estamos num mundo moderno e tecnologicamente avançado e tenho tido a preocupação de não ficar para trás. Não posso ficar parado. Sou uma pessoa muito ambiciosa, neste momento, estou empenhado em aprender Francês e Inglês. Aprendi também a navegar na Internet.

A: Concorda com a prática de se retirarem crianças às famílias para alegadamente aprenderem o Alcorão noutro país? No seu caso, não precisou de o fazer porque vivia perto de uma escola corânica…
Alfa Mutaro: No meu caso, depois de o meu pai falecer, o meu tio ponderou mandar-me para a Gâmbia ou Senegal, pois o meu pai havia manifestado essa vontade. Mas acabei por ficar em Mansoa, a conselho do Sheique Aladje Abubacar Zaide, mestre de uma escola na Gâmbia, que, na altura, visitou a Guiné-Bissau, pois o que eu ia aprender fora do país também podia aprender aqui. Quanto às crianças saírem do país, isso depende da forma como saem das famílias. Até concordo se for mesmo essa a vontade dos pais e se não mandarem as crianças sem procurar saber se o local para onde vão reúne boas condições. Somos contra nos casos em que são levadas para locais que não reúnam condições condignas.

A: E quanto às crianças talibés, que são retiradas às famílias com a desculpa de que vão aprender o Alcorão e acabam por ser exploradas. Na sua opinião, que entidades devem ser chamadas à responsabilidade perante este fenómeno?
Alfa Mutaro: Em primeiro lugar, devem ser chamadas à responsabilidade as entidades nacionais responsáveis pelos assuntos islâmicos. Em segundo lugar, são responsáveis os próprios pais ou encarregados de educação das crianças.
Os responsáveis pelos assuntos islâmicos no país não têm criado condições para que haja escolas com capacidade para albergar todos os alunos que as procuram, tanto em Bissau como noutras regiões. Não fizeram tão pouco o levantamento de dados sobre o número e capacidade das escolas corânicas existentes no país. É claro que enquanto não houver escolas, e tendo em conta que os muçulmanos têm na mente que é obrigatório os pais levarem os filhos a aprender o Alcorão, vai ser muito difícil abrandar esta situação. Aqueles que não têm meios vão continuar a mandar os filhos para outros países para cumprirem essa obrigação, sem medirem as consequências. Quanto aos pais, realmente um muçulmano deveria actualizar-se sobre tudo que há à sua volta. Na Guiné, temos a Escola Corânica de Mansoa, que tem vindo a formar um grande número de alunos. Se houvesse duas ou mais do género, acho que esta situação seria colmatada. Não há nada que uma pessoa possa aprender no Senegal que não possa aprender na Guiné sobre o Islão. Além disso, na Guiné há a vantagem de os pais estarem próximos e se poderem inteirar da situação dos filhos na escola.

A: O que tem sido feito ou poderá vir a ser feito para acabar com o problema?
Alfa Mutaro: Por um lado, não podemos esquecer a questão da pobreza e da falta de mais escolas corânicas qualificadas, que são problemas que têm que ser colmatados. Por outro lado, é preciso adoptar práticas mais convenientes que resolvam este problema, integrando todos os intervenientes na resolução (chefes das tabancas, mulheres, pais e encarregados de educação, a sociedade em geral, intelectuais, etc.). As organizações que batalham pelos direitos das crianças podem tornar as suas estratégias mais eficazes incluindo as entidades que mencionei atrás na busca de uma solução definitiva. Sempre que forem resgatadas crianças, devem manter uma conversa séria com essas entidades e depois pôr em prática a solução obtida, porque ao serem simplesmente devolvidas as crianças aos pais, estes podem sentir-se injustiçados e até podem revoltar-se e mandá-las de novo.

A: Acha que o Governo, sendo laico, deve fazer alguma coisa?
Alfa Mutaro: Acho que o Governo pode fazer alguma coisa, porque os muçulmanos da Guiné são cidadãos pertencentes a uma comunidade maioritária. Deve interessar-se e debater a causa com os outros intervenientes.

A: Este fenómeno dos talibés afecta, de alguma forma, a imagem da religião?
Alfa Mutaro: Afecta muito, pois simula que a religião é violenta e discriminatória. Mas, na realidade, este fenómeno contraria as nossas intenções. Numa das suas palavras, o Profeta Maomé diz: “quem não respeitar os nossos velhos e não tiver carinho para com as nossas crianças, não faz parte da nossa religião”.

A: Voltando só um pouco à sua vida, tinha dito que o seu pai tinha deixado um recado ao seu tio para o levar a aprender. Do ponto vista do fenómeno que estamos a tratar, não acha que é a mesma coisa que acontece com as outras crianças?
Alfa Mutaro: Pode ser, sim. Só que o meu pai tinha deixado claro para onde é que me deviam levar. Acreditava que as escolas da Gâmbia ou do Senegal) eram de boa qualidade e formavam bons alunos. Mas, apesar do testamento do meu pai, não fui levado porque o mestre compreendeu que era indiferente aprender aqui ou no Senegal.

A: Ainda sobre a sua vida como professor, já lidou com muitos alunos que aprendem simultaneamente na escola corânica e na escola normal do Estado. Existe alguma relação entre as duas escolas?
Alfa Mutaro: Existe uma grande relação sim, apesar de cada país ter a sua língua, enquanto a religião islâmica e o seu livro sagrado se transmitem na língua árabe. Mas o profeta diz: “amar a pátria faz parte da fé”. Se uma pessoa não estudar ou não conhecer a sua pátria, como é que poderá fazer algo por ela? Então um muçulmano deve, como religioso, aprender a sua religião e, como cidadão, aprender ciência para ser um bom quadro e dar a sua contribuição à pátria. O livro sagrado diz: «ensinem aos vossos filhos aquilo que sabem e façam-nos aprender aquilo que vocês não sabem, porque eles vão viver num tempo diferente do vosso».

A: Quer dizer que se deve aprender nas duas simultaneamente?
Alfa Mutaro: Isso mesmo. Deve-se aprender nas duas simultaneamente.

A: Então quais são, na sua opinião, as dificuldades que alguns muçulmanos têm em crer que se deve aprender as duas escolas simultaneamente?
Alfa Mutaro: Cada comunidade tem as suas tradições e os seus hábitos. Mas entendo que é negativa e errada a ideia de que um verdadeiro muçulmano deve aprender só a religião islâmica. É um pensamento desactualizado.

A: Para terminar, quer deixar alguma mensagem?
Alfa Mutaro: Vou agradecer, primeiro, a oportunidade que me concederam para me inspirar sobre este assunto. Depois tenho que exortar os muçulmanos a se organizarem e a serem mais abertos. Por outro lado, quando alguns muçulmanos cometem erros, não se devem condenar todos por causa disso. Isto é um grande erro que se faz. Cada pessoa deve ser condenada pessoalmente e não se deve responsabilizar toda a comunidade muçulmana ou a religião. Por último, peço à juventude muçulmana que se empenhe mais e procure aprender muito sobre a sua religião. A religião não impede que a pessoa resolva os seus assuntos, nem que se ocupe da sua vida particular. Pelo contrário, as pessoas devem actualizar-se, só assim serão boas praticantes.

Por: Amadú Dafé

(foto cedida pelo entrevistado)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ficha Técnica

Anunciador - Jornal escolar do Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha
2008/2009:
Professora e coordenadora do Clube e Atelier de Jornalismo: Susana Fonseca (Professora do PASEG - Programa de Apoio ao Sistema Educativo da Guiné-Bissau - Cooperação Portuguesa)
Alunos do Atelier de Jornalismo:
Abrão Nanque, Dauda Pires, Djamila Vieira, Domingos Fernandes, João Ernesto Gomes, Justino Ampanail, Justino Ié, Josefa António Bassim, Mário Albino Ié, Midana Lima Sampa, Ocante António Ié, Telésfora Salvador.
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Participações especiais em 2008/2009: Amadú Dafé - ex-aluno do Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha e do Clube e Atelier de Jornalismo; Mário Júlio Benante - director do Liceu Dr. Rui Barcelos da cunha; Cirilo dos Santos - professor de Filosofia
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Colaboração na revisão de textos: professora Ana Sofia Morgado
Fotografia: professora Susana Fonseca
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Professores responsáveis pelas rubricas periódicas:
Cidadania - Escola Limpa: professora Susana Fonseca
Palavras e Expressões: professora Teresa Cardoso
Poesia: professora Ana Sofia Morgado