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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Cronicando...

O poder da imaginação do Homem

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Há muitas pessoas que tentam pôr em prática certas coisas imaginárias. Muitas vezes, estas tentativas servem interesses pouco gloriosos.
Em certas aldeias e ilhas, há sempre alguém que se gaba de ser o mais sábio de todos. Estas pessoas influenciam outras, em momentos em que estejam a atravessar maiores dificuldades, a fim de poderem dominá-los. Sempre que estas pessoas chegam perto de alguém que querem dominar, sussurram ao desgraçado que a sua alma não está no seu corpo, que foi tirada por um irã da família do seu pai ou da sua mãe e, assim que vê o medo no seu rosto, simula fazer-lhe um feitiço. Geralmente o povo acredita que só um irã da própria família, que lhe seja próximo, é que lhe pode fazer mal. Quando está doente ou tem um problema, esta pessoa vai associar a sua doença ou problema às palavras que o feiticeiro disse quando lhe fez o feitiço e vai acreditar que é mesmo essa a causa do que lhe acontece.
Mas também há muitas pessoas que não acreditam nestes “sábios”. Não acreditam ou porque preferem acreditar na razão ou porque preferem acreditar num Deus superior a qualquer Homem. Passamos então a outras reflexões: o desespero das pessoas no momento em que o mundo está rolando, com todas as dificuldades, leva-as a acreditar no que dizem os que têm mais influência na mente humana.
Devemos tomar cautela em relação a isto, senão vamos para o mesmo lugar para onde eles vão: o inferno. Entenda-se por inferno um lugar de perdição, em que somos completamente dominados ou nos deixamos dominar.
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Por: Teodora Tavares (11ª Classe)

Cronicando...

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Desencanto na Praça

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Na minha infância estudei na escola 19 de Setembro junto à Praça dos Heróis Nacionais, onde tudo era bonito e limpo. Quando não havia aulas nós íamos ao porto para ver o mar e os barcos que iam chegar e aqueles que partiam. O caminho que percorríamos até ao porto era um caminho agradável e muito movimentado, com bancos e um mercado. O cinema, por onde passávamos, era limpo e bonito e dava prazer assistir aos filmes. Também passávamos pelo tribunal, que era um lugar fresco com relva, onde ficávamos a olhar para o jardineiro a regar os espaços verdes. Mas agora tudo está destruído. O cinema não funciona. O porto está destruído porque há muitos barcos velhos e muito lixo que os moradores lançam ao chão e ao mar. No tribunal já não há aquela torneira onde bebíamos água, nem há jardineiro para cuidar daquela relva. A única coisa que dá algum movimento a este lugar são as esculturas de artesanato expostas para venda nalguns passeios. Mas estes objectos de artesanato são sempre do mesmo género. Por isso, o desencanto continua…
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Felismina Mendes (8ª Classe)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Viagem a Kansala

Telésfora Salvador


Uma vez na minha vida tive a oportunidade de conhecer um espaço sagrado, situado na zona de Gabú, mais concretamente em Kansala. Este local foi palco das históricas lutas guerreiras entre fulas e mandingas, decorridas por volta do século XVIII, no Império de Gabú, que era anteriormente uma célebre região do Império do Mali. Embora já tenham passado muitos anos, décadas e séculos, há quem ainda se depare com vestígios de ódio, que ainda acendem discussões. Essas guerras longínquas sacrificaram muitas vidas e acredita-se que os restos mortais dos que morreram continuam espalhados pelo local, daí o respeito exigido aos que visitam Kansala.
Durante o percurso até Kansala observei muita coisa, mas o objectivo era chegar ao local para realizar o desejo de conhecê-lo. Neste local, conheci a casa do lendário governador mandinga Mansa Djanki Walle e pude falar com um dos seus descendentes, que foi quem me conduziu propriamente ao local sagrado. Neste local árido e infértil, destacam-se dois poilões (espécie de árvores de grande porte) que, segundo o nosso guia, outrora foram gente, um deles uma mulher e outro um homem. Diz-se que pela força do amor se transformaram em poilões e escaparam ao incêndio suicida de Mansa Djanki Walle. Este governador preferiu incendiar Kansala e o seu povo em vez de se submeter aos fulas. Kansala é visitada por pessoas que querem pedir um futuro melhor, deixando as suas ofertas junto daquelas árvores e de umas pedras eminentes que sobressaem na zona.
Kansala, embora receba o culto de alguns, é um local histórico abandonado, à semelhança de muitos outros locais na Guiné. Mamadú Walle, o nosso guia e descendente do lendário governador mandinga, tem o sonho de que um dia haja um museu regional que não deixe esquecer a história do seu povo. Infelizmente a História da Guiné tem sido esquecida pelos nossos governantes, o que trará perdas à identidade do povo guineense e africano. A política é também, ou deveria ser, fundadora da nossa identidade, da identidade de todos nós. Seria bom que as questões do nosso património e da nossa História não fossem esquecidas e tivessem lugar nos programas políticos. Também os jovens podem ser sensibilizados e mobilizados para iniciativas nesta área, já que são eles os guardiões do futuro.

terça-feira, 16 de junho de 2009

As crianças da Guiné-Bissau...

Crónica de Amadú Dafé

As crianças da Guiné-Bissau são muito corajosas e batalhadoras. Trabalhar e só depois brincar faz parte, para eles e para os seus educadores, de uma reciprocidade indispensável a uma boa educação. Aprendem muito cedo que a vida é um mar intransitável que invalida esforços e esperanças, pelo que lhes resta respeitar e obedecer aos outros, especialmente aos mais velhos e, sobretudo, aceitar as condições económicas em que vivem. O respeito pelos mais velhos é a conduta de base da educação das crianças e aprender a trabalhar ainda muito novo e a obedecer cegamente às ideias dos velhos é a concepção básica para a obtenção de um futuro melhor. Por isso, elas são obrigadas, por conduta, a trabalhar com responsabilidade e consciência firme e ainda são obrigadas a submeterem-se aos mais velhos, como forma de preparar melhor a sua vida.
Na Guiné-Bissau, o trabalho de crianças é natural e, talvez por ser prático, é bem visto. A grande maioria dos educadores domésticos, para educar melhor, tem que fazer referências às crianças vizinhas que trabalham muito. Tratam com mais carinho e zelo as crianças que se empenham muito no trabalho. Diz-se que uma boa uma menina é aquela que, ao levantar-se da cama, se preocupa antes de tudo com a vassoura para varrer a casa, depois com a água para encher o pote e para lavar as tigelas (louça) e só depois é que cuida de si própria, lavando-se e tomando o pequeno-almoço para depois brincar. Isto é eterno na mente das meninas, mesmo estando hospedadas noutra casa. E diz-se também que um bom menino é aquele que procura lenha para a cozinha da casa, segue o pai à horta e, quando mandado, faz o que lhe é dito sem reclamações ou murmúrios. É com esta mente que crescem. É dentro desta sociedade que representam aquilo que são. As crianças são realmente uma gota fria de lágrimas inocentes, que chora sem saber porquê. São das sensações de frio mais serenas, porque tudo isto se passa, não em complemento da escola e da brincadeira, mas, muitas vezes, em vez da escola e da brincadeira. Pior ainda, há casos em que os filhos são “expulsos” de casa pela manhã e só podem regressar quando arranjarem uma determinada soma de dinheiro. Às vezes levam algo à cabeça para venderem, outras vezes apenas uma lata e pés descalços…


Na Guiné, vê-se em cada aurora e em cada poente, meninas a levar à cabeça, protegendo-se com um paninho enrolado – chamado em crioulo ordidja –, baldes de água que apanham nos poços poucos afastados das suas moradas, para encherem os potes ou para os trabalhos de casa. Vemo-las ainda, com olhos impotentes, nesses mesmos períodos, a varrerem as ruas com muita pressa, sussurrando melodias suaves, como se fossem o responsável pela casa. Vê-se igualmente, no crepúsculo, meninos e meninas em grupo a caminho das hortas e à procura de lenha para as cozinhas das casas. Depois, em casa, vêem-se as meninas na cozinha soprando para que o fogo arda fortemente e lhes permita acabar de cozinhar rapidamente para arranjarem tempo para ir brincar com as colegas. E vê-se tudo isto com alegria e paz. Vê-se nelas a vontade e coragem de trabalharem com responsabilidade, o amor e orgulho por aquilo que são. São, mais uma vez, a alegria fria e a pacificidade do mar. São ainda para os adultos o meio de espairecer. Quando trabalham, encantam os educadores; quando brincam, alegram todo o mundo. As diversões das crianças, nas horas que sobram do trabalho, fazem a paz no país e animam o ambiente ao seu redor.
As crianças da Guiné não anseiam por férias, como noutros países, porque lhes está reservado o trabalho. Anseiam pela escola! Mas este ano, a muitas crianças e jovens, a escola foi-lhes negada durante quase todo o ano lectivo. Entre greves e boicotes, perderam a noção dos tempos escolares e já não insistem nos quilómetros de percurso até à escola, sob o sol e a fome, para esperarem em vão pelos professores. Agora esperam apenas pela época das chuvas que, por entre as tarefas habituais, lhes desperta alegria e esperança. Quando chove, saem a correr debaixo das chuvadas, cantando tchuba tchubi dam pano branco, pedindo a paz. Sob a noite de luar, brincam, em grupos, nas ruas, ao toca palmo e fazem o jogo de serce-serca, quilá-quilá. À tarde, na terra húmida, os rapazes jogam ao berlinde ou juntam-se em círculo para jogarem ao nventu ou palpita de cara/coroa. As raparigas arriscam na terra o jogo da malha, do surumba-surumba, trinta e cinco, etc. Com as chuvas e a terra molhada, passa-lhes a vontade de voltar à escola e aos cadernos.
Já é um hábito as aulas começarem em Janeiro, em vez de Outubro. Este ano, acrescem as paralisações por parte dos professores, que reivindicam cinco ou seis meses de salários em atraso. Fala-se que este ano lectivo será compensado, prolongando-se as aulas pela época das chuvas… Porém, as infra-estruturas não têm as mínimas condições durante as chuvas. Pais e crianças acabam por perder a paciência e o amor à escola. Ao invés da delinquência e do vandalismo, os pais preferem inserir os filhos no habitual esquema do chamado “trabalho infantil”, evitando males maiores de que ninguém parece querer falar. Não é a solução, mas sem evoluções no ensino, as alternativas são talvez duvidosas ou, na opinião de muitos, inexistentes…
Ainda assim, é grave, em pleno século XXI, assistir-se ao trabalho de menores. A tendência é associar estas práticas a sociedades atrasadas. Se fosse possível substituir o gosto e o orgulho perante o trabalho infantil, pelo gosto e pelo orgulho perante a educação científica, seria melhor o futuro das crianças. Mas, para que isso seja possível, o sector do ensino e o nível de vida da população têm que melhorar. Uma criança sem escola não conhece os seus direitos nem deveres, só faz aquilo que lhe disserem que é melhor, com medo de atrapalhar o seu futuro. E uma pessoa adulta e com fome não se lembra dos direitos de ninguém e fica mais violenta e corrupta.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Um turista no paraíso!

Foto: Chegada a Bolama

Quando viajamos pela primeira vez ou quando viajamos para uma terra que não conhecemos, tendemos a observar atentamente o que está à nossa volta. Cada viagem de canoa para as ilhas do arquipélago de Bijagós é como se fosse a primeira viagem. A paisagem é encantadora e observá-la dá um enorme prazer.
Sinto o vento e o ritmo das ondas!
As ondas embalam-nos e parece que regressámos à infância. Nas praias, podemos acampar, podemos mergulhar, podemos passear. As ilhas Bijagós são locais fantásticos e maravilhosos.
Sinto-me um turista no paraíso!

Crónica de Viagem, por Zézito António Pedro

Jovens guineenses

Foto: Os Netos de Bandim

Falar da sociedade guineense é falar do relacionamento entre ‘povos’ diferenciados. Apesar da diversidade existente, o relacionamento social é positivo e tem boas formas de organização. Exemplo disso, é a união entre as famílias e entre os jovens, de modo a colmatarem as graves dificuldades económicas. Há uma tradição de partilha que permite resolver questões de sobrevivência.
Infelizmente, a cada ano que passa, vêm-se agravando os problemas de banditismo. Por exemplo, na época do Natal os assaltos são diários, criando-se situações de insegurança e ferindo os princípios de solidariedade.
É preciso lutar contra o banditismo. Neste sentido, têm-se criado nos bairros associações de jovens, que têm por objectivos: lutar contra a delinquência juvenil e preparar um futuro melhor. Muitas associações de jovens desenvolvem actividades culturais e recreativas, que fomentam o espírito de colectividade e amizade. A preparação para o Carnaval é uma dessas oportunidades.


Crónica Social, por Tamara Sá

Falhou o sonho!

Quem diria que a Guiné-Bissau não seria, em 2007, o país campeão do torneio da Taça Amílcar Cabral? O sonho dos guineenses foi adiado. Para quando, ninguém sabe! Todos estavam convictos que a Taça, que andava na nossa boca, depois de “mastigada” seria nossa. Mas, depois de muitos cânticos, a selecção dos ‘djurtos’ não conseguiu realizar o que os seus apoiantes esperavam dela.
No futebol não há justiça, já que fomos eliminados por uma selecção que podia ter sido esmagada em 15 minutos. Não se compreende como é que os favoritos saíram desonrados, como é que houve tão pouca cautela. É que nós não somos cientistas, por isso devíamos ter deixado as experiências de lado, evitando os erros.
Faltou-nos a sorte! Controlámos o jogo e marcámos cedo. Mas houve resposta! Apesar de termos reafirmado a nossa posição até ao fim, infelizmente a sorte não esteve connosco. E assim os ‘djurtos’ foram eliminados da Taça que tem o nome do fundador da nossa nacionalidade!

Crónica Desportiva, por Fernando Tchuda

Pista de Convívio

Foto: Amadú Dafé
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Na rua em frente ao recinto do Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha encontramos um pequeno mercado de venda de produtos alimentares e algum material escolar. Este mercado estende-se ao longo de toda a rua, passando junto a outras escolas, como a Salvador Allende, o Liceu Dr. Agostinho Neto e o Liceu Nacional Kwame N’Krumah. Acabamos por encontrar aqui um espaço de convívio, especialmente para os alunos.As mesinhas com comida ocupam o passeio, exibindo pães, sandes com ingredientes de preços variados, donetes e alguma fruta de origem nacional. As arcas térmicas, cheias de água fresca, sorvetes congelados e sumos artificiais, fazem par com as bancadas da comida. A maior parte dos vendedores são mulheres. Exceptuam-se algumas crianças, meninos cujos pais são pobres e menos privilegiados e que suspendem a escola dos filhos para garantir a sobrevivência familiar.Muitos alunos não têm dinheiro para pagar transporte que os traga até à escola, pelo que acabam por fazer grandes caminhadas diárias, debaixo do insuportável sol da Quaresma ou das chuvas que surpreendem pelo caminho. Chegam cansados e esfomeados, dispensando a aula de Educação Física. Apesar do esforço que fazem, falta-lhes formação e bons conselhos, pelo que alguns acabam por ocupar o famoso sombreado frente à escola, passando horas a jogar matraquilhos. Durante o dia inteiro, meninos e meninas perdem tempos lectivos, preferindo os bonecos às aulas. Com as mãos sujas e os punhos cheios de óleo e pó, atravessam a estrada e dirigem-se às vendedoras, pegando na comida sem lavar as mãos. Quando entram nas salas de aula, continuam com as mãos do mesmo jeito. Outros alunos dirigem-se ao famoso passeio da escola já depois das aulas, muitas horas depois de terem saído de casa, e compram tudo o que podem e gostam. O mesmo acontece com alguns professores. É um espaço de convívio para todos. Contudo, esta estrada também tem servido as necessidades dos alunos, professores e transeuntes, pondo em causa a higiene dos alimentos, que ficam às moscas e podem representar um perigo para os consumidores. O sol arde, aquecendo fortemente o solo, o ar, as paredes das salas… o que deixa todos aflitos e a queixarem-se do grande calor. Mas, à saída da escola, vende-se água fresca, refrescos, gelados… que diminuem a temperatura assim que lhes pegamos.

Amadú Dafé