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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Directores dos liceus vizinhos: Qual o balanço do ano lectivo 2009/2010?

Mário Benante (Liceu Dr. Rui Brcelos da Cunha): O ano lectivo decorreu com poucos sobressaltos, apenas com dois ou três dias de greve, tendo sido cumpridas as actividades lectivas previstas. Em termos técnico-pedagógicos, todas as actividades decorreram com sucesso. Neste momento estamos na fase de preparação das provas globais e esperamos que as mesmas decorram normalmente.
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Em relação à escola, fizemos algumas obras de recuperação nas salas de aula, na sala de professores, nas casas-de-banho e no gabinete do conselho técnico-pedagógico. Construímos ainda três salas, uma para reuniões, outra para os inspectores e outra para o conselho disciplinar. De modo a garantir a segurança da escola, também temos tomado algumas medidas, como a instalação de portas reforçadas. Também melhorámos a organização da estatística e já equipámos esta secção com computadores, para que no próximo ano sejam informatizados todos os dados relativamente aos alunos e professores. Temos um projecto de criação de uma sala de informática, que prevemos que esteja equipada no próximo ano lectivo. Outro projecto que gostaríamos de ver concretizado é a criação de um laboratório para as aulas de ciências. Depois há outros projectos a decorrer, como a recuperação de espaços verdes, ou a publicação do jornal escolar.

Finalmente, refiro um documento que está a ser elaborado com o apoio do PASEG, que é o regulamento interno do liceu. O regulamento prevê, por exemplo, a atribuição de um prémio de mérito aos melhores alunos de cada classe, que ficarão isentos de propinas no ano seguinte ou, quanto aos alunos da 11ª classe, não pagarão a certificação final. Este mês o documento estará disponível e, em Setembro, será discutido e submetido a aprovação pela comunidade escolar.
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Júlio Delgado (Liceu Nacional Kwame N'Krumah): Há muito tempo que um ano lectivo não corria tão bem. Para além das aulas terem começado no tempo devido, e tirando dois dias de greve, as aulas decorreram de forma extremamente positiva. Por outro lado, também conseguimos realizar diversas obras nas salas, conseguimos equipar totalmente uma sala de informática, instalar a Internet, recuperar a biblioteca e instalar uma enfermaria para alunos e professores (que têm consultas médicas gratuitas).
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Destacamos ainda o laboratório de física, química e biologia, resultante da parceria com o PASEG. Este laboratório está a ser construído na escola e estará a funcionar no próximo ano lectivo. Temos ainda outros projectos para arrancar, como a melhoria da instalação e distribuição de água no liceu e o desenvolvimento do projecto Escola Limpa.
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Gostaria ainda de referir uma preocupação que temos tido, e que espero que seja partilhada pelas direcções dos outros liceus, que é controlar muito bem os processos de matrícula dos alunos. Para se matricularem e frequentarem/ concluírem um ano lectivo, os alunos têm que entregar os certificados comprovativos do aproveitamento nos anos anteriores. Só desta forma se pode garantir a regularização e a qualidade do processo de ensino.
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Sene Djau (Liceu Dr. Agostinho Neto): Para nós o balanço foi positivo. Foi um ano normal, o que permitiu que neste momento já estejamos prestes a realizar as provas globais. Logo após as provas globais vamos começar a pensar no próximo ano lectivo. As matrículas para 2010/2011 vão começar no mês de Agosto e vão terminar no mês de Setembro, prevendo-se o recomeço das aulas para o início de Outubro. Gostaríamos de melhorar a escola, mas o problema é a questão do dinheiro. Estamos a pensar em pintar a escola, fazer uma cantina escolar e uma sala de informática. Seja como for, faremos o possível. No próximo ano haverá 12º ano e é preciso melhorar e aumentar a capacidade da escola. Este ano já foram construídas sete salas.
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Entrevistas realizadas a 08/06/2010 por
Cassiano Camamate e Felismina Mendes (alunos da 8ª Classe)

Entrevista a Atchó Express

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Jacinto Mango (conhecido por Atchó Express) foi professor de Língua Portuguesa no liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha, e é hoje jornalista da Rádio Sol Mansi, poeta, promotor de eventos culturais no Centro Cultural Português e realizador de filmes e documentários. Foi recentemente transferido para a Secretaria da Cultura e Desportos.
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1. Jornal Anunciador (JA): Fale-nos do seu percurso enquanto professor?
Atchó Express (AE): Antes de ser professor, fui estudante e membro fundador da Associação de Estudantes do liceu Dr. Agostinho Neto em 1991/1992. Comecei a leccionar no liceu Dr. Agostinho Neto depois de terminar a minha formação em Língua Portuguesa (Escola Superior Tchico Té), em 1997/1998; mas antes, em 1995/1996, fui contratado como professor do Ensino Básico. Enquanto professor no liceu Dr. Agostinho Neto, fui também membro da CODAE (Comissão de Actividades Extra Curriculares), chegando mesmo a ser presidente desta comissão. Em 1997, já como professor, fundei o grupo cultural Brigada Cultural Estudantil Dr. Agostinho Neto, sendo o autor de dois hinos de finalistas dos liceus Dr. Agostinho Neto e Dr. Rui Barcelos da Cunha. Sempre fui aquele professor que incluía a formação moral e social na programação das minhas aulas.
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2. JA: O que o motivou então a abandonar esta profissão e a optar pela cultura?
Atchó Express: É simples, trabalhava na Rádio Sol Mansi e ganhei uma bolsa de estudos para o Brasil a fim de fazer o curso de jornalismo. Depois do meu regresso e de começar a trabalhar no Centro Cultural Português, achei por bem abandonar o ensino. Também aconteceu o actual Secretário de Estado da Cultura convidar-me para este sector e eu aceitei. Mas garanto que não deixei de ser professor, até porque tenho um programa na rádio chamado «Prazer da leitura».
Deixei de ser professor de uma turma, ou de giz, mas passei a ser professor de microfone.
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3. JA: Quais as dificuldades que enfrentou quando era professor? E agora como jornalista, é mais fácil ou mais difícil?
Atchó Express: Para dizer a verdade, decidi ser professor para educar os alunos, porque quando era aluno, eu era muito irrequieto, por isso optei por dar aulas. Eu até costumava trabalhar com os alunos um texto de Sebastião da Gama, um grande pedagogo, que mostra quem é o aluno e o professor. Um texto que considero ser um estatuto do professor e dos alunos, mostrando os limites de cada um de nós. Como professor nunca fui humilhado, nem por alunos, nem pelos meus colegas, nunca marquei uma falta disciplinar a um aluno, pois sempre que acontecia algo, tomava sempre um texto que falasse da indisciplina e mostrasse ao aluno onde estava o mal ou então chamava o seu encarregado de educação para conversarmos. Por exemplo, num ano lectivo, numa das minhas aulas numa sala da 9ª classe, perguntei aos alunos quem era São Francisco de Assis e um aluno de respondeu-me que São Francisco de Assis era um jogador de Sporting; então decidi enviá-lo para casa a fim de trazer o seu encarregado de educação para vir à escola, e ele fê-lo passados três dias. Depois analisámos um texto com o título «guarda que comer, não guardes que fazer», da autoria de Castro Pires. O aluno, depois da explicação do texto, pediu desculpas e garantiu nunca mais incomodar as minhas aulas nem as dos outros professores, e muitos professores testemunharam que o aluno mudou.
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4. JA: Para além de professor e jornalista, também é artista, como consegue conjugar estas coisas?
Atchó Express: Uma coisa eu tenho, é o patriotismo. Digo sempre que o guineense tem que ter o hino nacional na boca e a bandeira na cara. Isso permite expressar-me e labutar dando a minha contribuição, seguindo Amílcar Cabral. As minhas profissões ajudam-me a fazer chegar a mensagem. Escrevo poesia e estou a entrar neste momento no mundo do cinema, faço estas coisas com o mesmo objectivo: educar, informar e sensibilizar o meu povo.
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5. JA: Ensino, cultura ou jornalismo? No fundo, qual considera ser a sua verdadeira profissão?
Atchó Express: Eu sou artista e dentro desta profissão é que abro as asas para as outras, porque gosto mais de informar, comunicar ao público.
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6. JA: Foi distinguido como poeta do ano em 2006, foi fácil conseguir esta distinção?
Atchó Express: Não, não foi fácil, mas o importante é trabalhar. Mas consegui-o com o poema “Árvore da Paz” que tem como objectivo anunciar e promover a paz. Fui distinguido como melhor poeta da escola, também no liceu Dr. Agostinho Neto em 1993/1994.
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7. As suas preferências…
Música: Justino Delgado; Dança: Ballet Nacional, Netos de Bandim; Teatro: Os fidalgos; Literatura: Odete Semedo, Abdulai Silá; Cinema: Sana Na N’Hada, Flora Gomes; Pintura/ Escultura: Centro Artístico Juvenil de Bissau.
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Por: Paulo Bem-Obe (professor de Francês)

terça-feira, 27 de abril de 2010

As viagens do professor Quintino Na Pana

. Foto: Quintino a atravessar o deserto da Mauritânia de bicicleta

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1 - Gosta de viajar? Porquê?
Gosto de viajar por uma razão muito simples, é que posso ver as diferenças entre vários países, como a Guiné, a Mauritânia, o Senegal, a Gâmbia. Durante a viagem posso conhecer várias pessoas. Viajar é bom, mas é preciso ter coragem.
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2 – Como é que gosta de viajar?
Viajo sempre de bicicleta e sozinho, pedalando. Considero-me um jovem mensageiro da paz. Gosto especialmente de viajar perto do Dia de África, que se celebra a 25 de Maio. Aproveito para meditar e para apelar para que África seja um continente de sossêgo. Os dirigentes políticos também deviam aproveitar esta data para reflectir.
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3- Por que cidades e países é que já viajou?
Fiz duas viagens. A primeira foi em Maio de 2008. Saí de Bissau para Ziguinchor e para a Gâmbia. A segunda foi em Maio de 2009, com partida de Bissau (Guiné-Bissau) para Ziguinchor (Senegal), Banjul (Gâmbia), Kaolak, Fadik, M’bour; Dakar, Tchesse, Louga Kebemer, Saint Louis (cidades do Senegal); depois segui caminho em direcção à Mauritânia, passei de Rosso no Senegal para Rosso na Mauritânia, até Tiguin (uma tabanca situada a 108 Km da capital da Mauritânia, Nuakchot). Ao chegar a Nuackchott coloquei a bicicleta num transporte público e regressei. Nesta segunda viagem andei 1253 quilómetros de bicicleta em oito dias.
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4 - Qual foi a viagem de que mais gostou?
Gostei mais desta última, à Mauritânia. Porque, quando estudava no liceu, ouvia sempre falar do deserto. Esta viagem permitiu-me ver e saber o que de concreto é o deserto. O que lá constatei é fantástico, vi por exemplo pessoas cobrindo sempre a cabeça com lenços de quase 3 a 4 metros de comprimento, protegendo-se das poeiras do deserto e do sol. Eu próprio tive que adquirir este equipamento porque é difícil andar no deserto sem este lenço em volta da cabeça.
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5 - O que leva na mochila?
Levo sempre comigo algumas roupas, água, rebuçados (amêndoas), bolachas, etc.
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6 - Qual é objectivo das suas viagens? Que mensagens leva?
Estou sempre a divulgar a mensagem da Paz para os povos africanos, pensando sempre neles. Nas minhas viagens levo comigo algumas bandas com uns dísticos de paz. Também estou sempre acompanhado da bandeira da Guiné-Bissau, mostrando a minha proveniência, e também tenho uma bandeira branca como símbolo da paz.
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7 - Das cidades que visitou, de qual gostou mais?
Apesar de Bissau ser a cidade onde vivo com a minha família, diria eu que posso viver em qualquer sítio, até mesmo no deserto. Quando cheguei à fronteira da Mauritânia, encontrei um agente da polícia das migrações que me disse: “vais entrar neste país, tens que aceitar viver como os mauritanos”. Esta frase encorajou-me bastante, e até me tirou o preconceito que tinha recebido de algumas pessoas, que me falaram antes de eu viajar para este país, dizendo que os mauritanos são más pessoas. No entanto, fui obrigado a respeitar as regras que lá encontrei e adaptei-me muito rapidamente, graças às minhas boas maneiras.
Alguns mauritanos, quando me viram com a bandeira da Guiné e da paz, deram-me pequenas moedas e leite, e outros até bateram palmas. Antes de regressar à Guiné, fiz um pequeno encontro com a comunidade guineense residente naquele país e ficaram muito satisfeitos.
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8 - Qual é a sua viagem de sonho?
A minha viagem de sonho é chegar à África do Sul de bicicleta, onde está um dos principais símbolos da paz: Nelson Mandela. Gostava de lhe apertar a mão.
9 - Quais foram as principais dificuldades que enfrentou nas suas viagens?
A dificuldade maior é a água ficar sempre quente. Também tenho dificuldade em arranjar dinheiro para a viagem. Cheguei a ficar algumas semanas na Gâmbia, junto com imigrantes guineenses, a trabalhar para ganhar algum dinheiro para o regresso. Outra coisa que me faz falta nestas viagens é uma tenda de campismo, pois facilitaria muito as minhas noites. Finalmente, tenho algum receio de andar nalgumas estradas, onde os carros viajam a alta velocidade.
Por outro lado, tenho sempre a preocupação de me identificar quando chego a cada país, junto do Ministério do Interior. Também entro em contacto com as rádios, para dar notícias, e também costumo contactar com o povo da Guiné-Bissau que está nos países que visito.
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10 - Nas suas viagens houve algum episódio que o tenha marcado mais?
Gostei da experiência na Gâmbia, quando estive a trabalhar com os imigrantes guineenses para arranjar dinheiro.
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11 - Qual é o prato principal em cada país que visitou?
Na Mauritânia o prato principal é carne de camelo. Também provei leite de camelo e é muito bom. No Senegal e na Gâmbia é o tchebdjem: arroz e peixe com especiarias e legumes.
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Quintino Na Pana - professor de Educação Física no Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha

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Entrevista preparada por todos os elementos do Clube e Atelier de Jornalismo
Redacção:
Felismina Mendes e Paulo Bem-Obé

terça-feira, 16 de junho de 2009

Como acabar com o fenómeno dos talibés escravizados?

Professor do Alcorão, Tcherno Alfa Amadú Mutaro Djaló, nasceu em 08 de Maio de 1973, no Sector de Mansoa, Região de Oio (Guiné-Bissau). É muçulmano de pais muçulmanos. Por motivos económicos e porque a educação religiosa também era prioritária, deixou os estudos oficiais com a 6ª classe, no ano lectivo de 1990/1991. Viveu a maior parte da sua vida em Mansoa, onde se encontra a residir neste momento. Aprendeu o Alcorão e as suas interpretações na Escola Corânica de Mansoa, fundada pelo Mestre Tcherno Djau Djaló, pai do Ustaz Aladje Abubacar Djaló que foi o seu professor. Terminou os estudos do Alcorão em Abril de 1992, obtendo assim o título consagrado de Tcherno (que significa, na língua fula, “mestre” ou “professor”), que lhe permitiu abrir uma outra escola do género em 1999, em Ingoré, a pedido dos muçulmanos locais e recomendado pelo seu professor. Actualmente conta já com seis anos nesta actividade. De regresso à terra natal, para ajudar o mestre na escola, exerce agora a função de porta-voz da Mesquita Dáira Ahlul Fadáh, ao mesmo tempo que cuida da sua família.



A: Tem dado alguns anos da sua vida à religião como professor. Orgulha-se disso?
Alfa Mutaro: Orgulho-me muito. Tenho feito isto com grande agrado. Sinto que tenho dado uma contribuição preciosa à religião e isto porque os ensinamentos do Alcorão deixam qualquer pessoa que os adquiriu com muita fé e muito carinho, pela sua cultura e pela sua pátria. As pessoas também ficam com a consciência de que devem dar, de algum modo, alguma contribuição para a sua religião.

A: Ensinar o Alcorão é obrigatório para qualquer muçulmano ou é só para aqueles que têm esse dom ou domínio?
Alfa Mutaro: De certa forma é obrigatório. Por exemplo, aqueles que não reúnem condições para ensinar devem motivar e encaminhar os mais novos, sob a sua responsabilidade, a irem aprender. Só o professor não pode fazer tudo, portanto os pais e encarregados da educação também têm um papel necessário. Mas ser professor é uma obrigação para aqueles que reúnem condições e habilidade de transmitir os conhecimentos que adquiriram.

A: Oficialmente a lei islâmica tem uma posição sobre a formação?
Alfa Mutaro: Tem sim, porque o Mensageiro de Deus, o Profeta Maomé, diz que adquirir conhecimentos básicos no Islão é obrigatório para todos os muçulmanos e muçulmanas. Diz ainda, numa mensagem a todos os muçulmanos, para irem nem que seja à China à procura de conhecimentos.

A: Revelou-nos que abandonou a escola cedo. Gostaria ainda de aumentar o seu nível de escolaridade?
Alfa Mutaro: Gostaria muito. Aliás, estamos num mundo moderno e tecnologicamente avançado e tenho tido a preocupação de não ficar para trás. Não posso ficar parado. Sou uma pessoa muito ambiciosa, neste momento, estou empenhado em aprender Francês e Inglês. Aprendi também a navegar na Internet.

A: Concorda com a prática de se retirarem crianças às famílias para alegadamente aprenderem o Alcorão noutro país? No seu caso, não precisou de o fazer porque vivia perto de uma escola corânica…
Alfa Mutaro: No meu caso, depois de o meu pai falecer, o meu tio ponderou mandar-me para a Gâmbia ou Senegal, pois o meu pai havia manifestado essa vontade. Mas acabei por ficar em Mansoa, a conselho do Sheique Aladje Abubacar Zaide, mestre de uma escola na Gâmbia, que, na altura, visitou a Guiné-Bissau, pois o que eu ia aprender fora do país também podia aprender aqui. Quanto às crianças saírem do país, isso depende da forma como saem das famílias. Até concordo se for mesmo essa a vontade dos pais e se não mandarem as crianças sem procurar saber se o local para onde vão reúne boas condições. Somos contra nos casos em que são levadas para locais que não reúnam condições condignas.

A: E quanto às crianças talibés, que são retiradas às famílias com a desculpa de que vão aprender o Alcorão e acabam por ser exploradas. Na sua opinião, que entidades devem ser chamadas à responsabilidade perante este fenómeno?
Alfa Mutaro: Em primeiro lugar, devem ser chamadas à responsabilidade as entidades nacionais responsáveis pelos assuntos islâmicos. Em segundo lugar, são responsáveis os próprios pais ou encarregados de educação das crianças.
Os responsáveis pelos assuntos islâmicos no país não têm criado condições para que haja escolas com capacidade para albergar todos os alunos que as procuram, tanto em Bissau como noutras regiões. Não fizeram tão pouco o levantamento de dados sobre o número e capacidade das escolas corânicas existentes no país. É claro que enquanto não houver escolas, e tendo em conta que os muçulmanos têm na mente que é obrigatório os pais levarem os filhos a aprender o Alcorão, vai ser muito difícil abrandar esta situação. Aqueles que não têm meios vão continuar a mandar os filhos para outros países para cumprirem essa obrigação, sem medirem as consequências. Quanto aos pais, realmente um muçulmano deveria actualizar-se sobre tudo que há à sua volta. Na Guiné, temos a Escola Corânica de Mansoa, que tem vindo a formar um grande número de alunos. Se houvesse duas ou mais do género, acho que esta situação seria colmatada. Não há nada que uma pessoa possa aprender no Senegal que não possa aprender na Guiné sobre o Islão. Além disso, na Guiné há a vantagem de os pais estarem próximos e se poderem inteirar da situação dos filhos na escola.

A: O que tem sido feito ou poderá vir a ser feito para acabar com o problema?
Alfa Mutaro: Por um lado, não podemos esquecer a questão da pobreza e da falta de mais escolas corânicas qualificadas, que são problemas que têm que ser colmatados. Por outro lado, é preciso adoptar práticas mais convenientes que resolvam este problema, integrando todos os intervenientes na resolução (chefes das tabancas, mulheres, pais e encarregados de educação, a sociedade em geral, intelectuais, etc.). As organizações que batalham pelos direitos das crianças podem tornar as suas estratégias mais eficazes incluindo as entidades que mencionei atrás na busca de uma solução definitiva. Sempre que forem resgatadas crianças, devem manter uma conversa séria com essas entidades e depois pôr em prática a solução obtida, porque ao serem simplesmente devolvidas as crianças aos pais, estes podem sentir-se injustiçados e até podem revoltar-se e mandá-las de novo.

A: Acha que o Governo, sendo laico, deve fazer alguma coisa?
Alfa Mutaro: Acho que o Governo pode fazer alguma coisa, porque os muçulmanos da Guiné são cidadãos pertencentes a uma comunidade maioritária. Deve interessar-se e debater a causa com os outros intervenientes.

A: Este fenómeno dos talibés afecta, de alguma forma, a imagem da religião?
Alfa Mutaro: Afecta muito, pois simula que a religião é violenta e discriminatória. Mas, na realidade, este fenómeno contraria as nossas intenções. Numa das suas palavras, o Profeta Maomé diz: “quem não respeitar os nossos velhos e não tiver carinho para com as nossas crianças, não faz parte da nossa religião”.

A: Voltando só um pouco à sua vida, tinha dito que o seu pai tinha deixado um recado ao seu tio para o levar a aprender. Do ponto vista do fenómeno que estamos a tratar, não acha que é a mesma coisa que acontece com as outras crianças?
Alfa Mutaro: Pode ser, sim. Só que o meu pai tinha deixado claro para onde é que me deviam levar. Acreditava que as escolas da Gâmbia ou do Senegal) eram de boa qualidade e formavam bons alunos. Mas, apesar do testamento do meu pai, não fui levado porque o mestre compreendeu que era indiferente aprender aqui ou no Senegal.

A: Ainda sobre a sua vida como professor, já lidou com muitos alunos que aprendem simultaneamente na escola corânica e na escola normal do Estado. Existe alguma relação entre as duas escolas?
Alfa Mutaro: Existe uma grande relação sim, apesar de cada país ter a sua língua, enquanto a religião islâmica e o seu livro sagrado se transmitem na língua árabe. Mas o profeta diz: “amar a pátria faz parte da fé”. Se uma pessoa não estudar ou não conhecer a sua pátria, como é que poderá fazer algo por ela? Então um muçulmano deve, como religioso, aprender a sua religião e, como cidadão, aprender ciência para ser um bom quadro e dar a sua contribuição à pátria. O livro sagrado diz: «ensinem aos vossos filhos aquilo que sabem e façam-nos aprender aquilo que vocês não sabem, porque eles vão viver num tempo diferente do vosso».

A: Quer dizer que se deve aprender nas duas simultaneamente?
Alfa Mutaro: Isso mesmo. Deve-se aprender nas duas simultaneamente.

A: Então quais são, na sua opinião, as dificuldades que alguns muçulmanos têm em crer que se deve aprender as duas escolas simultaneamente?
Alfa Mutaro: Cada comunidade tem as suas tradições e os seus hábitos. Mas entendo que é negativa e errada a ideia de que um verdadeiro muçulmano deve aprender só a religião islâmica. É um pensamento desactualizado.

A: Para terminar, quer deixar alguma mensagem?
Alfa Mutaro: Vou agradecer, primeiro, a oportunidade que me concederam para me inspirar sobre este assunto. Depois tenho que exortar os muçulmanos a se organizarem e a serem mais abertos. Por outro lado, quando alguns muçulmanos cometem erros, não se devem condenar todos por causa disso. Isto é um grande erro que se faz. Cada pessoa deve ser condenada pessoalmente e não se deve responsabilizar toda a comunidade muçulmana ou a religião. Por último, peço à juventude muçulmana que se empenhe mais e procure aprender muito sobre a sua religião. A religião não impede que a pessoa resolva os seus assuntos, nem que se ocupe da sua vida particular. Pelo contrário, as pessoas devem actualizar-se, só assim serão boas praticantes.

Por: Amadú Dafé

(foto cedida pelo entrevistado)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mário Benante - Director do Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha


Mário Julio Benante (Mazito para os mais próximos) nasceu a 28 de Agosto de 1971 na cidade de Bissau. Estudou em Bachil, numa escola situada no norte do país. Depois de concluir a 4ª classe foi para Pelundo, onde concluiu a 5ª e 6ª classes no internato Saco Vaz, frequentado pelos filhos dos antigos combatentes. Continuou os estudos em Bafatá e em Mores. Depois de ter terminado a 9ª classe, voltou para Bissau, onde concluiu a 11ª classe em 1992. Neste mesmo ano foi recrutado para dar aulas de Educação Visual em Bolama, tendo nessa altura desempenhando também outros cargos, como o de coordenador da disciplina, o de presidente do conselho disciplinar e o de responsável pelos materiais e pelo património. De regresso a Bissau, a partir de 1994, leccionou na escola Justado Vieira, estando em simultâneo a fazer curso médio de contabilidade no CENFA. Continuou a desempenhar vários cargos na escola, nomeadamente o de presidente do conselho técnico.
Em 2006 foi nomeado director da escola Salvador Allende, função que desempenhou até 2008, ano em que passou a ser director do Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha. Estando presentemente a concluir a licenciatura em Contabilidade, é também professor de Contabilidade Introdutória no CENFA.

A: No início do ano lectivo, que desafios e prioridades traçou para o liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha?
MB: As prioridades foram melhorar o aspecto da escola e as suas infra-estruturas e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade do ensino. Queremos transformar este liceu num dos melhores de Bissau. Arranjámos ou substituímos quadros e carteiras, pintámos os diferentes pavilhões, criámos um balcão de atendimento na secretaria, colocámos caixotes do lixo no recinto escolar, numerámos e identificámos todas as salas e departamentos, melhorámos a sala de professores. Não podemos esquecer o papel do nosso parceiro PASEG, que nos tem ajudado com o projecto Escola Limpa. Há outros objectivos traçados, nomeadamente no que respeita ao saneamento e às casas de banho, mas, por questões financeiras, ainda não conseguimos alcançá-los.

A: O que tem sido feito para melhorar a qualidade de ensino?
MB: Relativamente à qualidade de ensino, neste momento garantimos que a formação administrada pelo PASEG chegue à maior parte dos professores. Existem alguns professores que frequentam os GAP (Grupos de Acompanhamento Pedagógico) e outros que frequentam os CAP (Cursos de Aperfeiçoamento do Português). Para além disso, tentámos diminuir o número de contratados e escolher aqueles que têm formação superior.

A: Quais são os principais problemas que tem enfrentado este ano lectivo?
MB: Assumi a direcção em Setembro de 2008 e o primeiro problema que tive que enfrentar foi o início tardio das aulas. Os professores reivindicavam os seus salários e, devido a esta situação, as aulas ficaram paralisadas durante o primeiro trimestre. Recentemente voltámos a esta circunstância de paralisação das aulas, que continua a ser o nosso principal problema.

A: Acha que este ano lectivo deveria ser considerado nulo?
MB: Quem pode pronunciar-se sobre se este ano lectivo deverá ser considerado nulo é o Governo, embora me pareça impossível isso acontecer. Faremos um esforço para que o ano lectivo decorra até Julho, tentando cobrir cerca de 65% das aulas previstas.

A: Qual é a relação que tem com a comunidade escolar?
MB: Desde que cheguei a este liceu, sempre tive um bom relacionamento com todos os elementos da comunidade escolar. A minha preocupação é a de melhorar as condições de trabalho de todos os funcionários, professores e alunos.

A: E a sua relação com a Oficina em Língua Portuguesa?
MB: Relativamente à Oficina em Língua Portuguesa, a relação é a melhor, pois vejo que os docentes beneficiam de diversos equipamentos e de formação em diferentes áreas, como o Português, a Matemática, a Filosofia, a Física e Química ou a Informática, para além dos muitos cursos dados a alunos. Aliás, não me canso de referir que o PASEG é um dos melhores projectos que temos na área da educação.
Por: Dauda Pires; Ocante Ié;
Telésfora salvador; Abrão Nanque; Midana Sampa

Morido Cá - Presidente da CONAEGUIB


Morido Cá faz 25 anos a 10 de Junho de 2009, frequenta o 2º ano da Faculdade de Direito e é porta-voz da CONAEGUIB desde a sua fundação, em 2000. Entre 2001 e 2004 foi também presidente da Associação de Alunos do Liceu Dr. Agostinho Neto. Em Setembro de 2008 passou a presidente da Confederação Nacional das Associações de Estudantes da Guiné-Bissau.
Momentos antes de uma manifestação de alunos, que aconteceu a 29 de Abril de 2009, tivemos a oportunidade de entrevistar este jovem activista .

A:Qual é o papel da CONAEGUIB?
M: O papel da CONAEGUIB é contribuir, de uma forma satisfatória e enquanto potencial parceira do Governo, para a consolidação e edificação de um ensino de qualidade.

A: É fácil ser presidente desta associação?
M: Não é fácil ser presidente desta associação, porque temos um sistema de ensino muito fraco, onde os sucessivos Governos são incapazes de garantir um ensino de qualidade. Por este motivo, o desempenho desta função é de acrescida responsabilidade e coragem, no sentido de exigirmos meios que garantam um melhor funcionamento do ensino.

A: O que se pretende com a vigília que estão a organizar?
M: A vigília de hoje é uma forma de manifestarmos o nosso descontentamento face às sucessivas paralisações no ensino.

A: Considera que o ano lectivo deve ser considerado nulo, como muitos alunos já assumem?
Em termos políticos dificilmente o ano lectivo pode ser considerado nulo, embora em termos técnicos e pedagógicos já o seja de alguma forma.

A: Que papel se espera da política e do Estado relativamente à educação e ao ensino?
M: Cabe ao Governo a definição de políticas educativas e de estratégias de ensino consistentes. Considero que, na Guiné-Bissau, o obstáculo à definição e execução de uma estratégia de ensino consistente é sobretudo financeiro e económico. O papel da política é orientar a educação para a qualidade, mas em nenhuma parte do mundo é possível conseguir um ensino de qualidade sem meios.

A: Em Junho os guineenses vão às urnas. Acha que este factor terá influência no ensino?
M: Estamos na expectativa de que a questão do ensino seja objecto de discussão na campanha. Julgo que os candidatos não podem ficar calados em relação a este assunto. Embora não tenham directamente um papel na definição de políticas educativas, devem apelar, junto do primeiro-ministro, para a resolução deste problema.


Por:Ocante Ié; Mário Ié;
Telésfora salvador; Abrão Nanque; Justino Ampanail

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Jornalista Fernanda Pinto Cardoso

Jornalista Fernanda Pinto Cardoso
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Fernanda Pinto Cardoso nasceu em Bissau a 26 de Maio de 1964. Licenciou-se em Jornalismo Internacional em Moscovo e estagiou no CENJOR (Centro de Formação para Jornalistas) em Lisboa. É um dos rostos da Televisão da Guiné-Bissau (TGB), que dá a conhecer aos guineenses as principais notícias nacionais e internacionais da actualidade.

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A: Considera que na Guiné-Bissau existe igualdade entre homens e mulheres?
FC: A mulher guineense tem um grande caminho a percorrer para acabar com a desigualdade de género. A nível político, por exemplo, em termos de lugares de decisão há várias situações que podemos apresentar como deficitárias no que respeita à representatividade feminina, como o caso da Assembleia Popular. Também ao nível da formação do governo, em cerca de 20 ministérios geralmente contamos com 5 mulheres, o que deixa claro o desequilíbrio entre a representatividade feminina e masculina.
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A: Porque é que, na sua opinião, não há mais mulheres a desempenhar cargos de decisão?
FC: Os cargos políticos são definidos politicamente. Na minha opinião são os próprios partidos políticos que não estão a dar importância às mulheres, pois não incluem essa questão nos seus estatutos. Outro problema relevante são as lacunas ao nível da escolarização das mulheres. Há uma grande percentagem de analfabetismo feminino na Guiné-Bissau. Este factor impede a igualdade de circunstâncias entre homens e mulheres.
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A: Que motivos podem ser apontados para o facto de as raparigas desistirem mais facilmente dos estudos que os rapazes?
FC: As raparigas desistem mais facilmente dos estudos do que os rapazes. Isto está relacionado com várias questões, como a zona de residência, a etnia ou a religião das famílias. A Guiné é um país rico em termos de diversidade étnica, cultural e religiosa. Cada etnia tem as suas regras e há etnias que dão preferência aos rapazes. A própria localização da escola fica muitas vezes longe da tabanca, pelo que os pais se inibem de deixarem as filhas frequentar a escola. Por outro lado, em termos de lides domésticas, é tradição as raparigas ocuparem-se destas funções. Mas tem-se feito um trabalho de sensibilização junto dos pais e tem-se visto a questão das acessibilidades para a escola. Em termos de parcerias internacionais, o papel do Programa Alimentar Mundial, por exemplo, também tem sido importante, nomeadamente com o incentivo das cantinas escolares, tanto para as raparigas como para os rapazes e até aos pais. O objectivo é diminuir o abandono escolar.
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A: Existem mulheres de referência na Guiné-Bissau e em África?
FC: Apesar do analfabetismo feminino generalizado, também temos casos de mulheres líderes na Guiné-Bissau, que deram provas de grande capacidade. Cármen Pereira foi presidente da Assembleia Nacional Popular, Filomena Tipot foi Ministra das Forças Armadas, ambos lugares tradicionalmente desempenhados por homens. Ao nível de África, podemos também referenciar a Presidente da República da Libéria, que é mulher. Fora da Política, em termos empresariais, na saúde e ensino, também há outras mulheres podem fazer algo pelo país se tiverem oportunidade.
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A: O que é que pode ser feito para aumentar a representatividade feminina em cargos de decisão?
FC: Primeiramente é preciso que os partidos mudem os seus estatutos internos, de forma a privilegiar a igualdade e equidade no seio do partido. A Plataforma Política da Mulher tem vindo a reivindicar esta mudança. Esta plataforma é um grupo criado por mulheres parlamentares da CPLP, da UEMOA, da própria sociedade civil e dos partidos políticos, com o objectivo de fazer pressão junto dos próprios partidos políticos e de promover a mulher em diversas áreas. Por exemplo, durante o período eleitoral a Plataforma tentou exigir a obrigatoriedade de uma quota de 40% de mulheres nas listas de candidatos a líderes da nação. Infelizmente nãotivemos o resultado que queríamos, mas a Plataforma não se desencoraja perante estas dificuldades, porque ainda há um longo caminho a percorrer. Tentamos fazer lobby para a inclusão de mais mulheres nos cargos de decisão.
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A: Como se sente quando uma mulher é chamada a desempenhar um cargo?
FC: É um orgulho quando uma mulher é chamada a desempenhar um cargo político, sobretudo quando estamos perante uma mulher à altura do cargo. Porque também é bom dar o cargo a quem o merece. Não se trata só de dar oportunidades às mulheres, mas sim de dar oportunidades às mulheres que as merecem.
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A: Na comunicação social é posta em prática a igualdade entre homens e mulheres?
FC: Na TGB, por exemplo, somos poucas mulheres, embora tentemos criar espaços para dar voz e incluir as mulheres. Mas realmente não existe um grupo de género dentro da comunicação social. Há um trabalho a fazer nesse sentido, até porque a maioria dos jornalistas guineenses são homens. Isto nota-se ao nível dos altos cargos da comunicação social e também até no próprio tipo de reportagens publicadas.
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A: Existe algum apelo que seja importante fazer passar relativamente a este tema?
FC: Existe um documento internacional, ratificado pela Guiné-Bissau, que é a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, o qual diz tudo sobre os direitos da mulher. É preciso pôr esse documento em prática, aplicar esta convenção. Neste momento, faço um apelo ao Estado da Guiné-Bissau para fazer aplicar esse documento. Quando isso acontecer, quando esse documento for posto em prática, então os direitos das mulheres serão respeitados.
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Telésfora Salvador, Midana Sampa, Josefa Bassim, Ocante Ié

Urcelina Gama Gomes - presidente do IMC

Urcelina Gama Gomes, presidente do Instituto da Mulher e Criança

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Urcelina Gomes nasceu em Bissau a 12 de Março de 1966. É jurista de profissão e está há quatro anos no Instituto da Mulher e Criança. Também gosta de moda e, nos tempos livres, é estilista.

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A: Qual é a razão do aparecimento do Instituto da Mulher e Criança?
UG: Havia necessidade de criar uma instituição, por parte do Estado, que tratasse de todos os assuntos da mulher e da criança. Por isso foi fundado este instituto em Fevereiro de 2000. O papel do instituto é fazer respeitar os direitos das mulheres e das crianças na sociedade guineense.

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A: Como é que protegem os direitos das mulheres?
UG: A melhor forma de proteger a mulher e a própria criança é ensinar-lhes a conhecerem os seus direitos e deveres e como é que devem protegê-los.

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A: É possível fazer-nos uma caracterização da mulher na sociedade guineense?
UG: A mulher guineense é batalhadora e, ao mesmo tempo, sofredora e triste. A pobreza é a principal causa deste sofrimento e tristeza.

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A: São as mulheres que procuram a instituição ou é a instituição que vai ao encontro das mulheres?
UG: Algumas mulheres procuram a instituição, mas muitas vezes é o instituto que vai ao encontro das mulheres depois de uma denúncia. Apoiamos no caso de violações e fazemos o encaminhamento desses casos para a justiça. Também actuamos no apoio à maternidade.

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A: No caso das mulheres que procuram a instituição, quais são as razões mais frequentes que as levam a dar esse passo?
UG: É a violência doméstica. A maior parte dos acompanhamentos que fazemos estão relacionados com os desentendimentos entre homem e mulher. Fazemos um trabalho de mediação, baseado no diálogo e na sensibilização. Por outro lado, também temos uma grande preocupação com a violência contra as crianças. Há casos de crianças violadas e espancadas. Tivemos um caso há pouco tempo de uma criança que foi espancada por causa de mil francos.

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A: Quais são as dificuldades que a instituição encontra?
UG: Às vezes há resistência e somos obrigados a ser acompanhados pela polícia, porque o nosso papel não é fazer a justiça mas sim orientar tanto o homem como a mulher. Por parte das mulheres, o instituto é bem acolhido. Às vezes as mulheres sofrem em silêncio há muitos anos e aproveitam a oportunidade para exteriorizarem e até resolverem os seus problemas. A maior parte das mulheres tem interiorizado o princípio de que tem que sofrer no casamento para criar bem os seus filhos. São educadas para sofrer. Esta mentalidade está muito longe de ser mudada. Preocupamo-nos em estar presentes e em apoiar. Sabemos que, apesar de haver um longo caminho a percorrer, não podemos agir a qualquer custo e correr o risco de perdermos a confiança conquistada. Não queremos que o instituto seja visto como estando a orientar mal as mulheres, tem que ser um trabalho contínuo.

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A:A mudança de mentalidades passa pela educação, mas a Guiné-Bissau tem uma elevada taxa de analfabetismo e de abandono escolar feminino. Qual é a razão deste fenómeno?
UG: As raparigas desistem mais facilmente dos estudos porque são obrigadas a dedicar-se às tarefas domésticas. Muitas raparigas são levadas para o casamento aos doze ou catorze anos e muitas vezes já foram dadas em casamento à nascença. Há etnias em que é tradição reservar uma filha para o tio. As pessoas alegam que é uma questão de cultura e tradição e que não se pode ir contra estas práticas. O nosso objectivo é mudar esta mentalidade, mas é um trabalho árduo e que não tem resultados de um dia para o outro.

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A: Sente que o balanço do vosso trabalho é positivo?
UG: Já conquistámos muitos aspectos positivos. Sentimos que há sempre algum sucesso na nossa intervenção, sem que haja qualquer violência porque a violência não resolve nada. Procuramos incutir o princípio da calma e do respeito.

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A: Para finalizar, há algum caso que nos queira relatar? Como é que o instituto ajudou a resolver a questão?
Tivemos um caso curioso, em que um homem deixou a mulher, não queria deixá-la ficar com o filho e passava em frente da sua casa na companhia da segunda mulher. A primeira mulher veio ter connosco e nós decidimos chamar o marido, que nos disse que já não amava a mulher. Dissemos ao marido que tinha esse direito mas que procurasse agir de uma forma mais respeitosa, o que o fez reflectir e mudar de atitude. Conclusão… mais tarde acabaram por ficar juntos novamente e às vezes vêm visitar-nos.
Há ainda outra questão delicada na Guiné, que é a questão da mutilação genital feminina. Temos aqui uma pessoa, que trabalha connosco, que já passou pelo mesmo e por isso consegue fazer um trabalho de sensibilização mais eficaz, porque faz parte dessa cultura e consegue ultrapassar o secretismo que envolve estas práticas.

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Djamila Vieira, Abraão Nanque, Mário Albino Ié

sábado, 14 de junho de 2008

Alassana Baldé

Alassana Baldé, Aluno no Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha e Presidente da Associação de Jovens Amigos da Língua Portuguesa para o Desenvolvimento.

A: Qual é a sua opinião sobre delinquência juvenil?

A delinquência juvenil é um problema que está a tornar-se incontrolável dentro da sociedade guineense. Entre outros factores, a principal causa da delinquência encontra-se na falta de ensino qualificado e de formação dos jovens, que lhes garanta emprego e condições de vida favoráveis. Neste momento a vida está muito difícil, não há condições sociais nem económicas de auto-sustento das famílias.

Roger Nagana e Ernesto Correia

Roger Francisco Nagana e Ernesto Higino Correia, membros da mesa de Assembleia de CONAEGUIB (Confederação Nacional de Associações de Estudantes da Guiné-Bissau)

A: Que tipo de delinquência juvenil existe em Bissau?

R&E: Existem vários tipos de delinquência na Guiné-Bissau, mas destacam-se os assaltos e o consumo de álcool e drogas.

A: Que factores conduzem à delinquência juvenil?

R&E: Os factores que conduzem à delinquência são sobretudo o desemprego, as greves escolares e a consequente desocupação dos jovens.

A: Qual é o papel da CONAEGUIB face a este problema?

R&E: A nossa associação tem a competência de fazer a ligação entre as associações de estudantes e o Ministério da Educação e Ensino Superior. Neste sentido, é nosso dever alertar sobretudo para os problemas que advêm das prolongadas greves escolares. As consequências são graves, a curto e a longo prazo. A curto prazo, as greves são um elemento facilitador da delinquência juvenil, uma vez que os jovens ficam desocupados e a alimentar vícios. A longo prazo, as greves debilitam ainda mais a educação e a formação dos jovens guineenses, que não ficam devidamente preparados para o futuro. Este último factor, a par de outros, vem agravar o problema do desemprego.
Acreditamos que o Governo vá providenciar melhores condições de trabalho no meio escolar para que os professores possam cumprir as suas funções. Por outro lado, também é urgente criar dinamismo empresarial para que surjam mais oportunidades de trabalho para os jovens.

Emmanuel Santos


Emmanuel Santos é, desde 2007, presidente do Conselho Nacional da Juventude (C.N.J.). Era ainda estudante, no Liceu Nacional Kwame N’krumah, quando começou a envolver-se com associações e organizações de voluntariado, ligadas à promoção da juventude e à luta por causas nobres, como o ambiente, a paz, a luta contra a SIDA ou o combate à pobreza. Antes de fazer parte da CNJ (2005), foi vice-presidente da Geração Nova Tininguena (2002), organização a que esteve ligado desde 1997. Tem organizado diversos encontros de jovens e actividades culturais: um concerto de RAP logo pós o conflito; o Carnaval; a V Semana Nacional da Juventude; o Campo Nacional de Jovens (Bolama); algumas visitas de estudo. Participou no Fórum Mundial da Juventude, em Dakar (2001) e na Conferência da Juventude da CPLP contra o VIH, em Bissau (2006).

A: Que tipos de delinquência existem em Bissau?
E: Antes de mais, gostaria de dizer que não gosto de expressão 'delinquência juvenil', porque associa indevidamente o mal à juventude. Mas o tipo de delinquência que existe em Bissau é especialmente o roubo, o alcoolismo e o crime ligado à droga.

A: Quais são os factores que conduzem à delinquência?
E: Assistimos ao aumento da pobreza, à falta de emprego, de formação e de saídas profissionais. Em termos gerais, há uma falta de enquadramento sócio-profissional dos jovens. As famílias também não têm capacidade para se auto-sustentar, especialmente em termos médicos. Há uma grande frustração na sociedade, que não vê soluções para estes problemas. E há uma falta de objectivos claros, por parte do governo, para dar resposta aos problemas que a Guiné enfrenta. Esta frustração faz com que muitos jovens não tenham força suficiente para enveredar por melhores caminhos.

A: Como é que sabemos que estamos perante um caso de delinquência?
E: Não considero que o desemprego dos jovens, em si, seja delinquência. É possível identificar um delinquente pelo seu comportamento, como a prática do roubo e o consumo de álcool e drogas. Em Bissau não há uma cultura de grupos de delinquência organizados, mas é um fenómeno que tende a desenvolver-se de forma preocupante. Em parte devido à circulação de pessoas proveniente da entrada do país para a UEMOA, por outro lado devido a um crescente consumo de droga.

A: Quais são as consequências sociais da delinquência juvenil?
E: As consequências são a nível pessoal e social: causa perturbações psicológicas e físicas (vícios, detenção), gera violência, corrupção e descrédito.

A: Como funciona a associação, em que actua e quais são os seus objectivos?
E: A CNJ é, antes de mais, uma plataforma que tem como missão coordenar as confederações e as associações da juventude da Guiné-Bissau. Trabalhamos em cooperação, diálogo e intercâmbio com diferentes parceiros. Em termos de actuação, apontamos para os objectivos referidos nos Estatutos da Acção Juvenil para o Desenvolvimento (ver no final da entrevista*).

A: O que pode ser feito para diminuir a delinquência juvenil?
E: É preciso criar condições de enquadramento educacional e profissional dos jovens. É preciso aproveitar o potencial natural e humano deste país. Olhemos para o exemplo de Cabo-Verde. Por outro lado, temos que ver a família como a base da sociedade e uma célula em que é preciso investir.

A: Há algum caso de que queira falar?
E: Há muitos casos que podem ser referidos. Gostaria de referir um caso de sucesso, em termos de reintegração dos jovens, que é o centro de recuperação de toxicodependentes e alcoólicos em Biombo (Quinhamel).
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*Objectivos do Conselho Nacional da Juventude:

a) Promover iniciativas que visem garantir o desenvolvimento intelectual dos jovens, das mulheres e das crianças, bem como a defesa dos direitos dos mesmos;
b) Contribuir para a elevação do papel das mulheres na vida económica, política, social, cultural e ambiental do país;
c) Lutar contra os flagelos sociais, como a droga, a prostituição, o racismo, a xenofobia e o analfabetismo.
d) Consciencializar os jovens sobre uma cultura de paz, democracia, participação e cidadania, bem como a paixão e o interesse pela formação em vários níveis e áreas;
e) Organizar e realizar actividades culturais e desportivas, igualmente sobre género e qualidade de vida;
f) Labutar pela qualidade ambiental nacional e internacional;
g) Lutar pelo respeito dos direitos e deveres das crianças e do Homem.

Zito Djú


Zito Djú, Coordenador de A.J.D.Q.
(Acção Juvenil para o Desenvolvimento de Quinhamel)

A: Que tipos de delinquência existem em Bissau?
Z: Antes de falar dos tipos de delinquência que existem em Bissau, é preciso definir essa palavra. Delinquência refere-se aos desvios de comportamentos e ao conjunto de más práticas sociais. Em Bissau são frequentes o consumo de álcool, droga e tabaco, o roubo, o homicídio e a prostituição.
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A: Quais são os factores que conduzem à delinquência?
Z: Os factores que conduzem à delinquência são problemas de ordem económica, especialmente o desemprego, mas também de ordem social, como as más companhias.
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A:O que pode ser feito para diminuir a delinquência juvenil?
Z: As associações juvenis são uma forma positiva de lidar com a delinquência, já que permitem um saudável convívio entre os jovens, bem como a participação em formações ligadas a vários domínios. As associações são espaços de lazer que ocupam os jovens num ambiente de acção.
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A:Quais são as consequências sociais da delinquência juvenil?
Z: As consequências sociais são sempre negativas, porque um delinquente torna-se uma pessoa violenta, isolada dentro da sociedade, a qual responde com cada vez mais violência
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A:Há algum caso de que queira falar?
Z: Sim, o caso concreto de um vizinho que atacou uma mulher, arrancando-lhe um fio de ouro que ela tinha ao pescoço. Pôs-se a correr para atravessar a estrada e foi atropelado por uma viatura que lhe quebrou o pé esquerdo.

"Torres Gémeos"

“Lil Saná” (Alassana Djaló), porta-voz do grupo Torres Gémeos - Grupo Musical da Nova Geração

A: Que elementos fazem parte do grupo Torres Gémeos?
L: Alassana Djaló, de 23 anos (porta-voz), estudante da Faculdade de Direito; Lésmis Monteiro, de 23 anos, também estudante da Faculdade de Direito; Libórriu Monteiro, de 25 anos e Ivandro, de 25 anos, ambos a estudar em Dakar.

A: Há quanto tempo formaram o grupo?
L: O nosso grupo, chamado Torres Gémeos, foi fundado no dia 15 de Setembro de 2006. Um ano depois, já foram gravadas 5 maquetas, com destaque para uma música de grande sucesso: N’boa Ambiciosa.

A: Porquê o nome Torres Gémeos?
L: A palavra ‘Torres’ tem a ver com o facto de os elementos deste grupo serem altos. ‘Gémeos’ significa instinto fraternal e amizade, de forma a igualar e a reforçar a amizade.

A: Quais são os objectivos do grupo?
L: Um dos nossos objectivos é tornarmo-nos um dos grandes grupos de hip-hop de Bissau, seguindo as actuais tendências. O hip-hop bissau-guineense faz a fusão do hip-hop com o djambadon, com a tina e também tem influências do reggae.
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A: Têm patrocínios?
L: Infelizmente nunca tivemos patrocínios. As gravações são fruto do esforço pessoal de cada elemento do grupo. Conseguimos alguma coisa através dos concertos que damos.
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A: Quantos álbuns gravaram desde a fundação do grupo?
L: Por falta de patrocínio, não gravámos nenhum álbum, mas sim maquetas. Uma maqueta é uma música e custa cerca de 15 000 fcfa. Para lançar um álbum, os custos excedem os 100 000 fcfa. Gravámos as maquetas em Bissau, num estúdio da Zona 7 e no estúdio da Rádio Mavegro. Gravámos as seguintes músicas: ‘Perdão’, ‘N’boa’, ‘Bué’, ‘Coca de Biombo’, ‘Caba Catem’, ‘Inveja’ e ‘Ka Bu Disam Sofri’. Os dois últimos trabalhos não foram divulgados na rádio porque precisam de algumas rectificações. ‘Bué’ foi gravado com um grupo dinamarquês que passou por Bissau.

Por Cadidjatu Seidi

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Carvalho Namone

Foto: Carvalho Namone, Director do Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha

Biografia
Nasceu a 14 de Fevereiro de 1962, em Mato Faroba, sector de Catió, região de Tombali. É professor de Biologia, diplomado na Tchico Té. Deu aulas no ensino básico, foi director de uma escola em Campada (S. Domingos, Cachéu) e também responsável de secção em Campada. Em Bafatá, foi coordenador de Biologia e Química, cargos que voltaria a desempenhar em Bissau, no Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha. Neste mesmo liceu, foi também presidente do Conselho Disciplinar. É actualmente o director do Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha, desde Novembro de 2007.

A: Que problemas enfrentou quando passou a director do liceu?
CN: Os problemas são vastos. Quando assumi a Direcção da escola, encontrei-a numa falência total. Herdamos a Direcção da escola com muitas dificuldades, especialmente em dívidas. Por exemplo, o pessoal menor (funcionários) não recebe há anos. Para além disso, ainda há dívidas relativas às obras da escola. Um dos nossos principais objectivos é pagar estas dívidas. A escola também tem muitas carências em termos dos materiais didácticos e infra-estruturas: não há gabinete para o subdirector, nem sala para a associação dos alunos, nem salas de formação.

A: Quais são as perspectivas para este ano lectivo? Qual é o plano de actuação da Direcção?
CN: Estivemos ocupados com a organização da Direcção da escola e com a preparação do ano lectivo. Também estivemos em negociações com o SAB para nos enviarem professores contratados, de modo a preencher as vagas deixadas por outros professores. Para o futuro, pretendemos concluir o ano lectivo com normalidade e pagar todas as dívidas, nomeadamente quanto ao pessoal menor e outras dívidas com os professores. Depois queremos criar e manter todas as condições necessárias para que não haja a paralisação das aulas. Também queremos continuar com as obras, depois de angariar os fundos de pagamento com as propinas dos alunos.

A: Qual é a relação que tem com os alunos?
CN: Naturalmente tenho uma boa relação com os alunos, nomeadamente com a Associação dos Alunos, porque são eles a força do desenvolvimento. Quando queremos dar algumas informações aos alunos recorremos à Associação. Neste momento, a Associação também está a organizar a limpeza da escola.

A: Qual é a relação da Direcção com a Oficina em Língua Portuguesa?
Quanto à Oficina e à relação com os professores cooperantes, o balanço é muito positivo, nomeadamente pela formação de professores e pela ajuda ao nível de equipamentos.
Por: Alaje Djaló, Fernando Tchuda, Franculino Gomes

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Dódó das Máscaras



Foto 1: Dódó das Máscaras.
Fotos 2 e 3: Máscaras alusivas ao tema do Carnaval de Bissau 2008: Combate à Droga e à Emigração Clandestina, para a afirmação da Paz e Reconciliação Nacional.

Biografia
Dódó Pereira Tecanhe nasceu em Ziguinchor, no ano de 1972. Aos 5 anos foi para Bolama (Bijagós), onde frequentou o Jardim Infantil. Foi aí que, com os incentivos de um padre, contactou com a arte da escultura e lhe cresceu a vontade de prosseguir esse caminho. Em 1988 foi para Bissau, onde viria a ingressar na Escola Artística, na qual foi discípulo do professor cubano Silvestre Alves. O funcionamento da escola e os estudos foram interrompidos por causa da Guerra Civil de 1998.

A: Que tipo de trabalho faz?
DM: Sou artista plástico e o meu trabalho é a arte da escultura e da pintura. Também organizo actividades ligadas à cultura (espectáculos ao vivo, play-back, passagem de modelos, etc.).

A: Qual é a sua motivação para fazer este trabalho?
DM: É algo que tenho no sangue, é um “dom”, do qual não posso fugir. Estou dependente do meu trabalho artístico. Geralmente a minha motivação são as crianças, porque o meu trabalho é para as crianças. Aliás, como vêem, eu trabalho sempre com as crianças, com a sua liberdade criativa. As crianças têm uma grande capacidade de aprender, por isso prefiro-as como alunos e, para além disso, são elas as herdeiras das máscaras.

A: Que matéria utiliza para fazer as máscaras?
DM: Os materiais são vastos, mas em primeiro lugar preciso de um plano de trabalho, sendo indispensável a resma e o lápis para a execução do desenho das máscaras que vou edificar. Depois de ter o plano de trabalho recorro a materiais diferentes: troncos de papaieira; cartão; papel de sacos de cimento; pedras; latas; lama; paus para segurar as máscaras; preciso também de farinha de trigo para torná-las mais duras; os cornos que servem de dentes nas máscaras; tinta e outros objectos (chifres, contas, etc.) para o embelezamento das máscaras.

A: Quanto tempo demora a fazer cada peça?
DM: Para fazer o trabalho necessito de muito sol e farinha de trigo duro. Quando reúno essas condições, posso terminar uma peça em 24 horas ou um pouco menos.

A: Quais são os apoios que tem a sua obra?
DM: Há apoios, por exemplo, ao nível da divulgação. No dia 31 de Janeiro vou fazer uma exposição e desfile de máscaras da década de 80, intituladas de Vital e N’ghaé, no Centro Cultural Português.

A: Que mensagem pretende transmitir com as máscaras que está a fazer agora?
DM: São máscaras de Carnaval, por isso a mensagem vai de encontro ao lema deste ano: Combater a Droga e a Emigração Clandestina, para a afirmação da Paz e Reconciliação Nacional.

A: Há quanto tempo participa no Carnaval?
DM: Há 14 anos.

A: Que prémios já ganhou? E quais são as perspectivas para este ano?
DM: Já ganhei, em anos anteriores, prémios de 1º, 2º e 3º lugares. Este ano reúno condições para ganhar. Um dos prémios que mais gostei de ganhar, há alguns anos atrás, foi o prémio de uma máscara alusiva ao problema SIDA. Essa máscara foi adquirida pelo Centro Cultural Francês. Mas também já tenho perspectivas de trabalhos para anos posteriores. Para 2010 estou a preparar uma máscara dentro de água.

A: Tchando de Sintra é outro grande artista de máscaras, qual é a sua relação com ele?
DM: Fomos colegas de escola. É o meu irmão de profissão. Há outros artistas de máscaras que eu gostava de ver trabalhar, não só para o Carnaval, mas ao longo de todo o ano. E gostava que dedicassem mais atenção às crianças, que as envolvessem na arte, porque delas vai depender o desenvolvimento da cultura.

Os Netos de Bandim




Fotos 1 e 2: Ensaios d' Os Netos de Bandim
Foto 3: Alunos do Atelier de Jornalismo a entrevistarem o porta-voz e coordenador do grupo - Ector Dióginas Cassamá

A: Quando é que se formou o grupo? Como? Porquê?
NB: O grupo formou-se no dia 12 de Novembro de 2000. Surgiu através da Escola dos Jovens Associados do Bandim, com o objectivo de participar no evento carnavalesco organizado pela ACESA, para promover os novos valores e difundir a nossa cultura. Actualmente o grupo é constituído por 50 crianças e jovens, um coordenador, um vice-coordenador e um responsável de relações públicas.

A: Porquê o nome “Os Netos de Bandim”?
NB: Bandim é a terra dos nossos avós e nós somos netos deles e fruto desta zona. Foi nesta perspectiva que surgiu o nome "Os Netos de Bandim".

A: Quantas vezes já participaram no Carnaval? Já foram vencedores?
NB: Participámos no Carnaval organizado pela ACESA, onde fomos vencedores duas vezes. Participámos no Carnaval da TININGUENA sete vezes e fomos vencedores três vezes. Em 2006 participámos no Carnaval Nacional, onde fomos vencedores.
Mas não actuamos só no Carnaval. Já fizemos várias acções de sensibilização no país, nomeadamente sobre a prevenção de doenças contagiosas. Até já viajámos uma vez para o exterior, para o Senegal, participando numa festa de casamento.

A: Há alguma história que queiram contar relativamente ao Carnaval?
NB: Sim, há uma história que ficou na memória do grupo. Passou-se em 2006, quando tínhamos o apoio de uma organização internacional, que não queremos denominar, mas com a qual acabámos por ter alguns conflitos. Divorciámo-nos dessa organização, a qual estava convicta de que não ganharíamos qualquer prémio sem eles. Fizemos um grande trabalho e conseguimos ganhar o prémio principal.


A: Quantos grupos étnicos constituem o grupo?
NB: Os grupos étnicos que constituem o grupo, no que respeita às suas danças, são: Balantas, Fulas, Mandingas, Felupes, Bijagós, Manjacos e, em estudos, Biafadas. Também temos danças mistas. Mas, independentemente das questões étnicas, o espírito do grupo é formar as crianças e envolvê-las na cultura nacional. Refira-se que o grupo é rigoroso em termos disciplinares, o que é bom para a formação dos jovens. Só com alguma disciplina se pode conseguir algo, sem abdicar é claro da criatividade de cada um.

A: Quais são as vossas perspectivas para este Carnaval?
NB: Neste Carnaval queremos ser vencedores. Para isso temos que trabalhar muito. Ensaiamos durante o ano todo, aos sábados.

A: Quais são os temas das vossas canções?
NB: Estamos a trabalhar o tema oficial do Carnaval, mas também a representar outras canções importantíssimas, de carácter étnico. Por exemplo, a dança de “campuni” da etnia Bijagós

A: Objectivos para o futuro.
NB: Legalizar o grupo, viajar de avião e fazer um blogue para o grupo.

Fernando Saldanha

A: Qual é a lema do Carnaval de Bissau 2008? Porquê?
F.S.: O lema do Carnaval de Bissau 2008 é O Combate à Droga e à Emigração Clandestina, para a afirmação da Paz e Reconciliação Nacional. Escolhemos estes temas porque são os maiores factores de destruição da nossa camada juvenil. Há que sensibilizar os jovens para estas questões.

A: Explique-nos a organização do Carnaval?
F.S.: O Carnaval de Bissau é organizado por uma Comissão Nacional. Mas também há as Comissões Regionais, que organizam os grupos no interior. No primeiro dia de Carnaval dão-se os desfiles regionais (sábado); no segundo e quarto dia (domingo e terça) é um desfile livre (individuais, escolas, ONG’s, bairros, igrejas, etc.); no terceiro dia (segunda-feira) é o desfile mais importante, que é o desfile nacional. No desfile nacional são escolhidos os vencedores. Existem três núcleos de juízes, em diferentes pontos do desfile (Pindjiguiti, Palácio Nacional, Benfica), para escolher os prémios das máscaras, de grupo e de rainha.

A: Que tipo de financiamentos existem para a organização do Carnaval?
F.S.: Não há apoios governamentais. Estamos à espera das respostas de algumas organizações internacionais. Entretanto há alguns patrocínios de empresas de telecomunicações, essencialmente para os prémios a atribuir. O orçamento total do Carnaval é de 34 000 000 de francos CFA.

A: Quais são os critérios para eleger os vencedores? Quais são os prémios a atribuir?
F.S.: O prémio das máscaras obedece a regras muito precisas e o primeiro prémio é de 700 000 francos CFA. O primeiro prémio de grupos é de 1 000 000 francos CFA e o prémio rainha é de 500 000 francos CFA. O júri deve considerar sobretudo as questões relacionadas com a diversidade cultural. Um fato especialmente bonito, num grupo, também pode ajudar na escolha.

A: Como é que funciona a organização das barracas? Em que períodos vão estar a funcionar?
F.S.: Oficialmente, as barracas abriram a 20 de Janeiro e deverão encerrar a 30 de Março. O seu funcionamento é da responsabilidade dos proprietários, a iluminação é da responsabilidade da Câmara e a segurança é da responsabilidade da Polícia. Estão abertas 24h por dia e, nestes dias de Carnaval, contam com espectáculos nocturnos de artistas nacionais.

A: Gosta de fazer parte desta organização? Porquê? Como é que chegou a vice-presidente?
F.S.: Essas questões têm a ver com o meu percurso pessoal. Nas ilhas, desde os 14 anos que organizava os carnavais. Quando estava no liceu, no 6º ano, ganhei entrada no curso de Formação de Técnicos Audiovisuais, tomando o gosto pela área. Este factor levou-me a tirar o curso de Jornalismo, em Lisboa. Quando regressei, organizei e fui cabeça de projecto de vários eventos culturais, nomeadamente os fantásticos Carnavais de 98 e de 2005. Este ano fui chamado pelo Ministério e aceitei o convite.

A: Na sua opinião, qual é a importância e significado do Carnaval?
F.S. O Carnaval não é apenas um desfile de máscaras. O Carnaval de Bissau é sobretudo uma manifestação cultural e tradicional - que promove a união nacional.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Associação de Estudantes funciona como mediadora

Foto: Wilson Cá, Presidente da A.E. no ano lectivo 2006/2007

“Desejamos que o nosso Liceu vá para a frente”

Filho de Maria Luísa e Fernando Cá, Wilson Cá nasceu no dia 4 de Outubro de 1985. Entrou para a Escola Domingos Félix, em Bandim, em 1999, fazendo aí a 1ª, 2ª e 3ª classes. Em 2001/2002 estudou no Ensino Unificado do Alto Bandim, onde terminou a 4ª, 5ª e 6ª classes. Em 2003/2004 prosseguiu os seus estudos no Liceu Dr. Agostinho Neto, frequentando, actualmente, o Liceu Dr. Rui Barcelos da Cunha. É também um frequentador assíduo da Oficina em Língua Portuguesa, onde tirou este ano o Curso de Textos Utilitários. Wilson foi, ao longo do seu persurso escolar, muitas vezes responsável de turma e foi coordenador do 1º e 4º turnos, ao lado do anterior presidente da associação. Agora é o segundo ano que exerce o cargo de Presidente da Associação de Estudantes.

A: Fala-nos um pouco da vida desta associação de alunos do liceu Dr. Rui B. Cunha.
No primeiro ano em que entrei para a associação, em 2005/2006, trabalhámos com muitas dificuldades, já que havia fraca sensibilização, por parte de alunos e professores, para trabalhar connosco. Para conseguir remodelar esta associação, foi necessário substituir alguns elementos, e escolher colegas dispostos a trabalhar e a desempenhar as suas tarefas). Também foi preciso conhecer o meio, para isso passei muitas horas na escola.

A: Qual é a relação da associação com a direcção da escola, os professores e com os próprios alunos?
Posso dizer que temos boas relações com todos, porque tentamos resolver os problemas entre professores e alunos de uma forma saudável, tentando apurar a verdade. Somos solicitados para resolver problemas que têm a ver com a avaliação, mas também acompanhamos processos disciplinares.

A: Quais são os principais problemas dos alunos e como é que a associação os encara?
O liceu tem mais de 5000 alunos e as dificuldades são vastas. São os chefes de turma que nos informam sobre os principais problemas, que geralmente se prendem com a relação entre o professor e o aluno. Muitas queixas têm a ver com a falta de apontamentos sobre a matéria que sai na Prova Global. Tentamos falar com o professor sobre a falta de pedagogia, mas também com os colegas, que não encaram o estudo a sério. Outros problemas com que nos temos deparado são, por exemplo, o atraso na entrega dos uniformes ou a questão dos cartões de aluno. Este ano houve um atraso na entrega dos uniformes, que só foram postos à venda no final do primeiro período. Muitos alunos rejeitaram a ideia de comprar o uniforme a meio do ano. Ora, a falta do uso de uniformes conduz à suspensão dos alunos por três dias. Tentámos sensibilizar os alunos para a necessidade de cumprirem esta regra, falando às turmas e até impedindo os alunos de entrar na escola, caso não vestissem o uniforme. Por termos feito isto, ainda somos vistos com maus olhos pelos alunos. Quanto aos cartões, sabemos que em qualquer parte do mundo o aluno deve andar com o seu cartão. Quando os alunos se aperceberam de que muitos colegas pagavam as propinas e não recebiam o cartão de aluno, recusaram-se a fazer os pagamentos devidos. O não pagamento das propinas traz problemas graves, já que as notas não serão afixadas e o aluno perde a oportunidade de fazer eventuais reclamações. Entretanto fizemos circular um aviso, juntamente com o Conselho Disciplinar, sobre as implicações do não pagamento das propinas.

A: Das promessas que fizeram durante o período das eleições, quais é que já foram cumpridas?
As promessas feitas foram: acesso de todos os alunos ao cartão escolar; higiene das casas de banho e da escola; mudança de uniforme; intercâmbio e visitas de estudo; Diploma de Mérito ao melhor aluno; boas relações entre a direcção, a associação de estudantes, os professores e os alunos.
Cumprimos a visita de estudo ao Ilhéu do Rei, o intercâmbio com o Liceu Jorge Ampa e uma boa limpeza da escola.
Não cumprimos o Diploma de Mérito porque a escola não tem um dia certo de homenagem ao nosso patrono. A escola foi inaugurada a 13 de Agosto, período de férias, mas já escrevemos para o Ministério da Educação para ser escolhido o dia de aniversário ou morte de Rui Barcelos da Cunha, como o dia da escola. Sem esse dia definido é difícil programar a entrega do Diploma de Mérito. Relativamente às relações da associação com os outros membros da escola, têm-me servido as experiências de associativismo, liderança e organização, adquiridas na formação da Escola Voluntária em Gabu.

A: Que perspectivas tem a tua associação para o futuro do nosso liceu?
Desejamos que o nosso liceu vá para a frente. No próximo ano temos como objectivos: 1º- que todos os alunos tenham o uniforme na terceira semana de aulas; 2º- que no segundo mês de aulas todos os alunos tenham o cartão; 3º- realização do campeonato inter-turmas; 4º- promover visitas de estudo, intercâmbios e palestras; 5º- fazer o encerramento do ano lectivo, para poder premiar os melhores alunos.
Abú Salé; Edmir Cali; Domingos Costa