terça-feira, 16 de junho de 2009

As crianças da Guiné-Bissau...

Crónica de Amadú Dafé

As crianças da Guiné-Bissau são muito corajosas e batalhadoras. Trabalhar e só depois brincar faz parte, para eles e para os seus educadores, de uma reciprocidade indispensável a uma boa educação. Aprendem muito cedo que a vida é um mar intransitável que invalida esforços e esperanças, pelo que lhes resta respeitar e obedecer aos outros, especialmente aos mais velhos e, sobretudo, aceitar as condições económicas em que vivem. O respeito pelos mais velhos é a conduta de base da educação das crianças e aprender a trabalhar ainda muito novo e a obedecer cegamente às ideias dos velhos é a concepção básica para a obtenção de um futuro melhor. Por isso, elas são obrigadas, por conduta, a trabalhar com responsabilidade e consciência firme e ainda são obrigadas a submeterem-se aos mais velhos, como forma de preparar melhor a sua vida.
Na Guiné-Bissau, o trabalho de crianças é natural e, talvez por ser prático, é bem visto. A grande maioria dos educadores domésticos, para educar melhor, tem que fazer referências às crianças vizinhas que trabalham muito. Tratam com mais carinho e zelo as crianças que se empenham muito no trabalho. Diz-se que uma boa uma menina é aquela que, ao levantar-se da cama, se preocupa antes de tudo com a vassoura para varrer a casa, depois com a água para encher o pote e para lavar as tigelas (louça) e só depois é que cuida de si própria, lavando-se e tomando o pequeno-almoço para depois brincar. Isto é eterno na mente das meninas, mesmo estando hospedadas noutra casa. E diz-se também que um bom menino é aquele que procura lenha para a cozinha da casa, segue o pai à horta e, quando mandado, faz o que lhe é dito sem reclamações ou murmúrios. É com esta mente que crescem. É dentro desta sociedade que representam aquilo que são. As crianças são realmente uma gota fria de lágrimas inocentes, que chora sem saber porquê. São das sensações de frio mais serenas, porque tudo isto se passa, não em complemento da escola e da brincadeira, mas, muitas vezes, em vez da escola e da brincadeira. Pior ainda, há casos em que os filhos são “expulsos” de casa pela manhã e só podem regressar quando arranjarem uma determinada soma de dinheiro. Às vezes levam algo à cabeça para venderem, outras vezes apenas uma lata e pés descalços…


Na Guiné, vê-se em cada aurora e em cada poente, meninas a levar à cabeça, protegendo-se com um paninho enrolado – chamado em crioulo ordidja –, baldes de água que apanham nos poços poucos afastados das suas moradas, para encherem os potes ou para os trabalhos de casa. Vemo-las ainda, com olhos impotentes, nesses mesmos períodos, a varrerem as ruas com muita pressa, sussurrando melodias suaves, como se fossem o responsável pela casa. Vê-se igualmente, no crepúsculo, meninos e meninas em grupo a caminho das hortas e à procura de lenha para as cozinhas das casas. Depois, em casa, vêem-se as meninas na cozinha soprando para que o fogo arda fortemente e lhes permita acabar de cozinhar rapidamente para arranjarem tempo para ir brincar com as colegas. E vê-se tudo isto com alegria e paz. Vê-se nelas a vontade e coragem de trabalharem com responsabilidade, o amor e orgulho por aquilo que são. São, mais uma vez, a alegria fria e a pacificidade do mar. São ainda para os adultos o meio de espairecer. Quando trabalham, encantam os educadores; quando brincam, alegram todo o mundo. As diversões das crianças, nas horas que sobram do trabalho, fazem a paz no país e animam o ambiente ao seu redor.
As crianças da Guiné não anseiam por férias, como noutros países, porque lhes está reservado o trabalho. Anseiam pela escola! Mas este ano, a muitas crianças e jovens, a escola foi-lhes negada durante quase todo o ano lectivo. Entre greves e boicotes, perderam a noção dos tempos escolares e já não insistem nos quilómetros de percurso até à escola, sob o sol e a fome, para esperarem em vão pelos professores. Agora esperam apenas pela época das chuvas que, por entre as tarefas habituais, lhes desperta alegria e esperança. Quando chove, saem a correr debaixo das chuvadas, cantando tchuba tchubi dam pano branco, pedindo a paz. Sob a noite de luar, brincam, em grupos, nas ruas, ao toca palmo e fazem o jogo de serce-serca, quilá-quilá. À tarde, na terra húmida, os rapazes jogam ao berlinde ou juntam-se em círculo para jogarem ao nventu ou palpita de cara/coroa. As raparigas arriscam na terra o jogo da malha, do surumba-surumba, trinta e cinco, etc. Com as chuvas e a terra molhada, passa-lhes a vontade de voltar à escola e aos cadernos.
Já é um hábito as aulas começarem em Janeiro, em vez de Outubro. Este ano, acrescem as paralisações por parte dos professores, que reivindicam cinco ou seis meses de salários em atraso. Fala-se que este ano lectivo será compensado, prolongando-se as aulas pela época das chuvas… Porém, as infra-estruturas não têm as mínimas condições durante as chuvas. Pais e crianças acabam por perder a paciência e o amor à escola. Ao invés da delinquência e do vandalismo, os pais preferem inserir os filhos no habitual esquema do chamado “trabalho infantil”, evitando males maiores de que ninguém parece querer falar. Não é a solução, mas sem evoluções no ensino, as alternativas são talvez duvidosas ou, na opinião de muitos, inexistentes…
Ainda assim, é grave, em pleno século XXI, assistir-se ao trabalho de menores. A tendência é associar estas práticas a sociedades atrasadas. Se fosse possível substituir o gosto e o orgulho perante o trabalho infantil, pelo gosto e pelo orgulho perante a educação científica, seria melhor o futuro das crianças. Mas, para que isso seja possível, o sector do ensino e o nível de vida da população têm que melhorar. Uma criança sem escola não conhece os seus direitos nem deveres, só faz aquilo que lhe disserem que é melhor, com medo de atrapalhar o seu futuro. E uma pessoa adulta e com fome não se lembra dos direitos de ninguém e fica mais violenta e corrupta.

4 comentários:

No bai disse...

Parabéns pelo jornal. Está muito bom e dá para ir vendo o que por aí se passa!

Beijinhos com saudades ao Dafé e parabéns pela crónica

Liliana

Culturas e Trandições disse...

Obrigado pela felicitação, professora Liliana. Também estou com saudades. Aposto que vou continuar a escrever mais artigos para o jornal e vou precisar sempre de comentários para melhorar e poder ganhar mais coragem!

Dafé

Maria Goreti disse...

Parabéns ao Dafé pelo trabalho aqui divulgado.

Sou uma das dinamizadoras do Projecto "Nós com África", desenvolvido pelo Agrupamento de Escolas José Saraiva de Leiria, Portugal.

Trabalhos como este são muito importantes para dar a conhecer Hábitos, tradições e diferentes modos de vida.

Permito-me deixar aqui um desafio: Como se aproxima a Quadra Natalícia seria possível dar a conhecer a forma como as crianças Guineenses celebram o Natal?

Para saber mais sobre o Projecto, espreite o blog: noscomafrica.blogspot.com

Débora Alfaia disse...

olá muito lindo seu blog. sou pesquisadora de brincadeiras infantis você poderia me dizer quais as principais brincadeiras de rua que as crianças
gostam?