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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Anunciador participa em concurso de jornais escolares

Editorial
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Hesito em referir que chegámos ao final de mais um ano lectivo, embora este seja precisamente o último jornal de 2008/2009. O jornal Anunciador teve em Fevereiro a primeira edição deste ano, resultante de um trabalho começado em Outubro. Foi uma edição dedicada à mulher guineense, que deu especial atenção à relação do tema com a educação e a escola. No final de Abril fizemos uma nova edição, com a participação da direcção do liceu, factor que muito nos agradou, pois um dos objectivos traçados para este ano era envolver mais elementos da comunidade escolar. A edição de Abril foi uma edição especial, dedicada ao IV aniversário do nosso liceu. Para a última edição, de Junho, reservámos o tema “Porque é que a política também é para nós?”, indo ao encontro do concurso de jornais escolares promovido pelo jornal português Público.
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Embora a questão a concurso – “Porque é que a política também é para nós?” – já tivesse sido abordada de forma implícita nas edições anteriores, nesta os alunos do Clube e Atelier de Jornalismo empenharam-se mais objectivamente no seu tratamento. Contudo, permitam-me que diga que esta tem sido, no nosso contexto, uma “questão do diabo”. Não é função do jornalismo reflectir e informar sobre o meio envolvente? Mas que trabalhos de jornalismo escolar podem ser feitos, alusivos ao tema em causa, num contexto em que o Presidente da República, o Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas e alguns ex-ministros foram contínua e brutalmente assassinados e outros espancados, na pequena cidade em que todos vivemos, trabalhamos e estudamos? E que trabalhos de jornalismo escolar podem ser feitos num contexto em que o ano lectivo tem sido submetido a prolongadas greves e boicotes, devido a repetidos atrasos no pagamento de salários, inviabilizando a vida normal de qualquer estudante? Que tipo de reportagens e de entrevistas podem ser feitas?
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Quando abordámos a comunidade escolar, poucos quiseram falar, mas uma das alunas que entrevistámos não hesitou em dizer-nos: “quem se levanta para reivindicar os seus direitos, morre”. Talvez sejam “mitos” ou talvez seja apenas o espelho de uma baixa auto-estima popular. Talvez… A incerteza explode em cada palavra que ouço e leio destes alunos, na mesma medida em que a esperança e a fé. Todavia, para alguns a necessidade de se questionarem e de se expressarem fala mais alto: o que significa tudo isto que se passa à nossa volta? Apontam caminhos, lançam ideias, criticam a amoralidade dos actos bárbaros a que assistem e sabem que não é isso que querem para si e para os seus filhos. E falo em filhos sem pudor, que na Guiné-Bissau ter filhos, mesmo na adolescência, é algo tão natural como namorar. Mas deixo esta última problemática para uma próxima edição...
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No início deste mês de Junho, professores e alunos voltaram à escola. Porém, hoje, enquanto procuro as palavras para este editorial, chove torrencialmente e talvez continue a ser uma incerteza que o ano lectivo tenha continuidade nos quatro maiores liceus de Bissau. Talvez… É por esta incerteza que hesito em dizer que chegámos ao final de um ano lectivo que, afinal, pode não ser consumado.
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Susana Fonseca

Porque é que a política também é para nós?

A política está ligada à liberdade e as duas estão associadas à capacidade do homem agir em público, que é o local original da política. A política é um esforço” para fazer reinar a ordem e a justiça, assegurando o poder, o interesse geral e o bem comum contra a pressão das reivindicações particulares. É também um meio de realizar a integração de todos os indivíduos na comunidade, de forma a obter a “cidade justa” a que aspiraram muitos pensadores. Para Aristóteles, por exemplo, a tarefa e o objectivo da política é a garantia da vida no sentido mais amplo, ou seja, está directamente relacionada com a busca da felicidade.
Se considerarmos a política como integração numa sociedade, a acção política está presente em todos os momentos da nossa vida, num âmbito mais ou menos privado ou mais ou menos público, quando nos relacionamos em família, com as pessoas do bairro ou da escola… somos parte integrante da “Cidade”. Enquanto cidadãos, pertencemos a um Estado e temos que fazer escolhas: podemos deitar lixo nas ruas ou não; podemos participar na associação do nosso bairro ou não; podemos trabalhar como voluntários por uma causa que acreditamos ou não; podemos até votar num político ou não vota, pois a própria abstenção é uma tomada de posição, que influencia em tudo o que acontece à nossa volta. Mas, se quisermos ter uma posição mais activa e responsável, que dê real significado à política, devemos, no mínimo, inteirar-nos dos diferentes programas políticos, porque somos nós os eleitores dos que vão chegar ao poder. Seria mau deixar à sorte a escolha do nosso futuro; para além de que o poder que tem por base o povo é o mais forte.
A política que esquece o povo e que consiste apenas em troca de insultos e intrigas, que pretende apenas o poder e o lucro, ou pior, a política que oprime o povo e não considera as suas escolhas não pode ir longe. Não podemos deixar que isto aconteça, temos que assumir que a política também é para nós, jovens e cidadãos comuns, porque está nas nossas mãos procurar o melhor para o nosso país. No futuro poderemos mudar o rumo das coisas, pois se tomarmos “o poder com a força do povo, a força do povo prevalecerá” e afastará a “força da bala”, como refere o cantor e músico guineense Zé Manel. Mas será que todos temos consciência da importância que cada um de nós desempenha?
Numa altura em que a Guiné-Bissau exige de todos uma reflexão sobre a política e sobre o futuro, saímos à rua para saber o que têm a dizer professores, alunos, jovens, enfim, os cidadãos comuns sobre o porquê de a política também ser para nós.

Qual é a importância da política?
Que dificuldades se podem colocar à política?
Considera que o nível de escolaridade da população pode ter influência na política?
Que papel têm os jovens na política?

António Pedro Barreto – professor de Educação Visual:
“A política permite-nos gerir um Estado. Os jovens devem ter um papel político e unir-se com objectivos comuns que ajudem toda a comunidade. Podem, por exemplo, criar associações que lhes permitam agir. As desvantagens da política têm a ver com o facto de existirem diferentes classes sociais. Quem é escolarizado faz melhores escolhas, quem é analfabeto limita-se a entrar na carruagem.”

Anita Brandão da Silva – professora de Inglês:
“A política é importante porque permite mudar muita coisa, particularmente num sistema democrático que dê a toda a gente a oportunidade de se expressar livremente. Por vezes, os políticos decidem fazer uma política sem bases e isso frequentemente traz complicações para a sociedade.
Os jovens são mais instruídos, pelo que devem contribuir para uma educação cívica da comunidade, ajudando as populações a compreenderem os programas apresentados pelos políticos.”

Aladje Dembo Jaquité – estudante do o 4º ano de Direito:
“É por meio da política que gerimos a coisa pública, que desenhamos tipos de desenvolvimento e que estabelecemos boas relações externas com os demais países do mundo. Mas, quando se fala de política no contexto guineense, a política está banalizada, porque é feita por pessoas que muitas vezes não conhecem a sua finalidade. Para além de que os militares têm uma intervenção no contexto político que gera convulsões. Por outro lado, a Guiné-Bissau tem condições adversas à afirmação política dos intelectuais. Nas campanhas pré-eleitorais, o povo dá atenção a questões que não estão relacionadas com a política, mas com a vida pessoal e social dos candidatos.
O papel dos jovens na política não é aquele que deveria ser, devido ao desconhecimento da História do nosso país e, por outro lado, ao frágil funcionamento das instituições do Estado. Os jovens vão atrás daquilo que ouvem dos políticos, sem procurarem ter uma opinião formada sobre vários aspectos da vida política, sendo que, depois das eleições, são os primeiros a terem as expectativas frustradas. Também não é garantido que a ascensão dos jovens na política, mesmo com elevada formação, possa mudar o cenário político do nosso país, até porque nada indica que as novas gerações sejam menos corruptas do que as anteriores. Ser escolarizado não significa ser bem formado. É preciso apostar na escolarização, mas sobretudo na educação cívica.”


Djenabu Seide – estudante da 8ª classe :
“Para mim, a política consiste na discussão de ideias que levam ao desenvolvimento de um país. No entanto, na Guiné, a política traz muitos problemas. Quem se levanta para reivindicar os seus direitos morre.
Acho que saber ler e escrever contribui para o desenvolvimento da sociedade. Mas penso que um jovem não se deve meter na política, porque, na Guiné, a política é muito difícil.”

Djibril Candé – professor de Biologia:
“A política deve facilitar a vida das pessoas, nomeadamente no desempenho das suas funções. Mas, na Guiné, as pessoas não compreendem o que é a política. É por isso que quem entra na política dizendo a verdade acaba por se dar mal.
Os jovens devem intervir conscientemente na manutenção da paz e reconciliação do país. Claro que o nível de escolaridade das pessoas influencia muito as suas escolhas, se analisarmos o facto de quase trinta por cento dos votos serem nulos, percebemos que isso acontece porque as pessoas não sabem ler.”


João da Silva Cá – professor de Matemática :
“A política, na antiga Grécia, tinha como objectivo original organizar e construir um país em prol do desenvolvimento do povo. Neste contexto tem grande importância.
Infelizmente, na Guiné-Bissau, os sistemas políticos que temos tido nestes últimos séculos não são sistemas políticos propriamente ditos. Actualmente, vemos muitos altos cargos do Estado a serem ocupados por analfabetos, enquanto os intelectuais que estudaram ficam de fora. Esta é uma realidade absurda, se tivermos em conta que o objectivo é desenvolver e organizar um Estado. O maior problema que se verifica na Guiné é o elevado nível de pobreza, de modo que parece não existir consciência nas pessoas. Com tão grandes dificuldades na vida é muito fácil uma pessoa ser manipulada, de forma injusta. A camada juvenil tem um papel muito importante a desempenhar na política, no sentido de mudar a mentalidade dos governantes, de alertar para os seus direitos, de construir e desenvolver o país em prol do bem-estar comum.”

Gueri Gomes Lopes – estudante no 3º Ano de Administração:
“Creio que a política tem grande importância para um país e para a sociedade em geral, na medida que só através dela podemos desenvolver esse mesmo país ou sociedade. Se não for entendida a razão da sua existência, a política traz sempre confusão entre os grupos activamente implicados, acabando por prejudicar quem deveria beneficiar dela.
Os jovens devem ter um papel relevante, na medida que devem sensibilizar a família e a comunidade para que não façam as suas escolhas por engano.
O nível da escolaridade influencia muito as escolhas da população, na medida em que permite avaliar um projecto de um determinado político. Quando as pessoas têm baixos índices de escolaridade, muitas vezes baseiam as suas escolhas em critérios de etnia, parentesco ou amizade.”

Texto de: Dauda Pires
Entrevistas feitas por: Josefa Bassim, Midana Sampa, Justino Ampanail,
Ocante António Ié, Telesfora Salvador, Justino Yé e Abrão Nanque

Viagem a Kansala

Telésfora Salvador


Uma vez na minha vida tive a oportunidade de conhecer um espaço sagrado, situado na zona de Gabú, mais concretamente em Kansala. Este local foi palco das históricas lutas guerreiras entre fulas e mandingas, decorridas por volta do século XVIII, no Império de Gabú, que era anteriormente uma célebre região do Império do Mali. Embora já tenham passado muitos anos, décadas e séculos, há quem ainda se depare com vestígios de ódio, que ainda acendem discussões. Essas guerras longínquas sacrificaram muitas vidas e acredita-se que os restos mortais dos que morreram continuam espalhados pelo local, daí o respeito exigido aos que visitam Kansala.
Durante o percurso até Kansala observei muita coisa, mas o objectivo era chegar ao local para realizar o desejo de conhecê-lo. Neste local, conheci a casa do lendário governador mandinga Mansa Djanki Walle e pude falar com um dos seus descendentes, que foi quem me conduziu propriamente ao local sagrado. Neste local árido e infértil, destacam-se dois poilões (espécie de árvores de grande porte) que, segundo o nosso guia, outrora foram gente, um deles uma mulher e outro um homem. Diz-se que pela força do amor se transformaram em poilões e escaparam ao incêndio suicida de Mansa Djanki Walle. Este governador preferiu incendiar Kansala e o seu povo em vez de se submeter aos fulas. Kansala é visitada por pessoas que querem pedir um futuro melhor, deixando as suas ofertas junto daquelas árvores e de umas pedras eminentes que sobressaem na zona.
Kansala, embora receba o culto de alguns, é um local histórico abandonado, à semelhança de muitos outros locais na Guiné. Mamadú Walle, o nosso guia e descendente do lendário governador mandinga, tem o sonho de que um dia haja um museu regional que não deixe esquecer a história do seu povo. Infelizmente a História da Guiné tem sido esquecida pelos nossos governantes, o que trará perdas à identidade do povo guineense e africano. A política é também, ou deveria ser, fundadora da nossa identidade, da identidade de todos nós. Seria bom que as questões do nosso património e da nossa História não fossem esquecidas e tivessem lugar nos programas políticos. Também os jovens podem ser sensibilizados e mobilizados para iniciativas nesta área, já que são eles os guardiões do futuro.

Porque é que a política também é para nós?

Justino de Deus Yé

A política é para nós porque somos nós, os cidadãos, que temos que saber o que queremos no futuro e o que não queremos. Temos que nos sensibilizar uns aos outros para nos afastarmos dos principais problemas da nossa sociedade: a droga e a discriminação social, étnica e cultural. A mentalidade tem que mudar, temos que nos unir contra a guerra e contra a violação dos direitos humanos. Cada qual deve ter um papel para pôr em prática, neste esforço comum de desenvolvimento da sociedade.
Uma sociedade sem ordem, onde cada um faz o que quer, sem respeito pela lei e pelo Estado, é uma sociedade caótica. Uma nação é formada por um conjunto de pessoas, é por isso que todos nós temos que pensar e fazer uma reforma moral radical. Se a política é a arte de governar uma nação, devemos nós saber governar-nos a nós mesmos, ser maduros e respeitosos, sem esquecermos que, se não vivermos a política, então a política não existe.

Justino Ampanail

A Guiné-Bissau é um país cheio de paisagens e de recursos naturais que a podem transformar num paraíso da costa ocidental de África. Este país tem terras férteis e pantanosas, boas para a produção agrícola, e tem riquezas marítimas e florestais em grande escala. Pergunto: porque é que a Guiné, com estas propriedades, não assume o seu papel a fim de encontrar o rumo do desenvolvimento? Creio que, se os nossos governantes apostassem na riqueza do país e pensassem no seu desenvolvimento, a Guiné poderia ser aquilo que todos nós esperamos e desejamos.
Porém pensar no desenvolvimento da Guiné é, primeiramente, pensar na educação, que é o sector básico e primordial para o desenvolvimento de um país. Claro que o meu desejo é ver a Guiné com boas condições na saúde e na agricultura, com electricidade e sem problemas de pagamento de salários, mas antes de tudo isso é essencial e primordial a educação. Nós não podemos pensar no desenvolvimento sem termos quadros formados: médicos, engenheiros e todo o tipo de técnicos, que são fruto da educação. Talvez este enorme atraso no progresso do país tenha a ver precisamente com a falta de quadros competentes para pensarem a Guiné.
Os problemas castrenses também contribuem muito e de forma directa para o nosso atraso, coisa que é lamentável. E os guineenses provavelmente não merecem este sacrifício. A Guiné tem muita coisa que a natureza lhe ofereceu e o que nós, de facto, deveríamos estar a fazer era cuidar desta riqueza para o nosso bem comum. Nesta óptica, é preciso pegarmos no nosso orgulho e espírito de patriotismo e começarmos a pensar na utopia da Guiné, transformando-a na mais rica cidade sub-regional. Contraditoriamente, e apesar da crítica situação económica e política do Mundo e em particular de África, os governantes continuam a apostar em argumentos e atitudes políticas que mais parecem propaganda, sem quaisquer objectivos que reflictam a modesta realidade em que vivemos. Na Guiné, a actual situação política em que se vive é completamente alarmante, feita de intrigas, inveja, egoísmo, ganância e vinganças, denegrindo a imagem do nosso país e do nosso povo.
A Guiné não merece este sacrifício todo, não pode continuar nesta situação de intensa conturbação política, com sucessivos actos bárbaros e terroristas porque, ao fim e ao cabo, a população civil é que acaba por pagar tudo isto. Então, talvez o povo guineense tenha que rezar a Deus para que haja verdadeira e duradoura paz e fraternidade entre todos. Vamos esquecer tudo o que passou e vamos unir-nos para edificar um elo único, olhando para o futuro da Guiné, preparando assim uma fortuna para a geração vindoura.

As "engenharias do desenrasque" no ensino

Desde os anos 90 que o sector do ensino da Guiné-Bissau se tem vindo a deteriorar. Lamentavelmente, a partir do ano de 1994, depois das primeiras eleições multipartidárias, o país vem conhecendo “engenharias de desenrasque” em termos de funcionamento das aulas. Devido ao aumento de matrículas nas escolas e na tentativa de evitar que alguns alunos ficassem de fora, aumentaram os turnos lectivos de 3 para 4 turnos (1º turno – das 7h00 às 11h00; 2º Turno – das 11h00 às 15h00; 3º turno – das 15h30 às 19h30; 4º turno – das 20h00 às 23h30). Aparentemente era a saída possível, mas, como consequência, deu-se uma acentuada falta de professores para cobrir todos os turnos. Como alternativa, os alunos finalistas (11ª classe) foram adoptados como professores, juntamente com os alunos que acabavam a formação na Escola Superior de Formação de Professores “Tchico Té”. Esta medida de recorrer aos alunos finalistas para ensinar tornou o ensino pedagogicamente frágil, fenómeno agravado pela falta ou inoperância da inspecção do Ministério para com a educação, para com a escola e para com os professores nas salas de aulas.
O conflito militar de 7 de Junho de 1998, para além de ter danificado muitas infra-estruturas escolares, veio aumentar a debilidade do sistema de ensino. Esta debilidade foi agravada pela falta de pagamento de salários, havendo inclusive um ano lectivo anulado, em 2001/2002.
No ano lectivo 2006/2007, por ocasião da queda do governo constitucional, os professores foram afectados pelo aumento de carga horária, às ordens do Ministério da Educação Nacional e Ensino Superior e com apoio sindical. A medida seria, alegadamente, para poder afastar os professores que trabalhavam em regime de contratação. Mas, na verdade, esta situação veio complicar a saúde dos professores, que esforçam a voz durante muitas horas em salas sem portas nem janelas, inapropriadas portanto para optimizar o som e a atenção dos alunos. Para além disto, muitos professores tiveram que preencher horários de dois turnos para satisfazerem a carga horária exigida, facto que teve consequências negativas também ao nível do tempo disponível para preparação das aulas e avaliação.
Já este ano lectivo, em 2008/2009, para além de as aulas terem tido início com 3 meses de atraso, a partir das festas do Carnaval temos assistido a paralisações constantes, devido aos casos de 1 e 2 de Março (as mortes do Chefe Maior General das Forças Armadas, Tagmé Na Waié, e do Presidente, “Nino” Vieira). Para além destes casos, assistimos, mais recentemente, às paralisações promovidas pelos professores dos quatros maiores liceus do país, devido à falta de pagamento dos salários. Agora pergunto: será que o governo não deveria ter a coragem de dar como nulo este ano lectivo? Qual é a “engenharia” a que vão recorrer desta vez para salvar o ano?
Parece-me que devemos ter a coragem de parar para pensarmos no que é que queremos para a educação dos nossos jovens e em especial para o sector do ensino.

Por: Cirilo dos Santos (professor de Filosofia)

terça-feira, 16 de junho de 2009

As crianças da Guiné-Bissau...

Crónica de Amadú Dafé

As crianças da Guiné-Bissau são muito corajosas e batalhadoras. Trabalhar e só depois brincar faz parte, para eles e para os seus educadores, de uma reciprocidade indispensável a uma boa educação. Aprendem muito cedo que a vida é um mar intransitável que invalida esforços e esperanças, pelo que lhes resta respeitar e obedecer aos outros, especialmente aos mais velhos e, sobretudo, aceitar as condições económicas em que vivem. O respeito pelos mais velhos é a conduta de base da educação das crianças e aprender a trabalhar ainda muito novo e a obedecer cegamente às ideias dos velhos é a concepção básica para a obtenção de um futuro melhor. Por isso, elas são obrigadas, por conduta, a trabalhar com responsabilidade e consciência firme e ainda são obrigadas a submeterem-se aos mais velhos, como forma de preparar melhor a sua vida.
Na Guiné-Bissau, o trabalho de crianças é natural e, talvez por ser prático, é bem visto. A grande maioria dos educadores domésticos, para educar melhor, tem que fazer referências às crianças vizinhas que trabalham muito. Tratam com mais carinho e zelo as crianças que se empenham muito no trabalho. Diz-se que uma boa uma menina é aquela que, ao levantar-se da cama, se preocupa antes de tudo com a vassoura para varrer a casa, depois com a água para encher o pote e para lavar as tigelas (louça) e só depois é que cuida de si própria, lavando-se e tomando o pequeno-almoço para depois brincar. Isto é eterno na mente das meninas, mesmo estando hospedadas noutra casa. E diz-se também que um bom menino é aquele que procura lenha para a cozinha da casa, segue o pai à horta e, quando mandado, faz o que lhe é dito sem reclamações ou murmúrios. É com esta mente que crescem. É dentro desta sociedade que representam aquilo que são. As crianças são realmente uma gota fria de lágrimas inocentes, que chora sem saber porquê. São das sensações de frio mais serenas, porque tudo isto se passa, não em complemento da escola e da brincadeira, mas, muitas vezes, em vez da escola e da brincadeira. Pior ainda, há casos em que os filhos são “expulsos” de casa pela manhã e só podem regressar quando arranjarem uma determinada soma de dinheiro. Às vezes levam algo à cabeça para venderem, outras vezes apenas uma lata e pés descalços…


Na Guiné, vê-se em cada aurora e em cada poente, meninas a levar à cabeça, protegendo-se com um paninho enrolado – chamado em crioulo ordidja –, baldes de água que apanham nos poços poucos afastados das suas moradas, para encherem os potes ou para os trabalhos de casa. Vemo-las ainda, com olhos impotentes, nesses mesmos períodos, a varrerem as ruas com muita pressa, sussurrando melodias suaves, como se fossem o responsável pela casa. Vê-se igualmente, no crepúsculo, meninos e meninas em grupo a caminho das hortas e à procura de lenha para as cozinhas das casas. Depois, em casa, vêem-se as meninas na cozinha soprando para que o fogo arda fortemente e lhes permita acabar de cozinhar rapidamente para arranjarem tempo para ir brincar com as colegas. E vê-se tudo isto com alegria e paz. Vê-se nelas a vontade e coragem de trabalharem com responsabilidade, o amor e orgulho por aquilo que são. São, mais uma vez, a alegria fria e a pacificidade do mar. São ainda para os adultos o meio de espairecer. Quando trabalham, encantam os educadores; quando brincam, alegram todo o mundo. As diversões das crianças, nas horas que sobram do trabalho, fazem a paz no país e animam o ambiente ao seu redor.
As crianças da Guiné não anseiam por férias, como noutros países, porque lhes está reservado o trabalho. Anseiam pela escola! Mas este ano, a muitas crianças e jovens, a escola foi-lhes negada durante quase todo o ano lectivo. Entre greves e boicotes, perderam a noção dos tempos escolares e já não insistem nos quilómetros de percurso até à escola, sob o sol e a fome, para esperarem em vão pelos professores. Agora esperam apenas pela época das chuvas que, por entre as tarefas habituais, lhes desperta alegria e esperança. Quando chove, saem a correr debaixo das chuvadas, cantando tchuba tchubi dam pano branco, pedindo a paz. Sob a noite de luar, brincam, em grupos, nas ruas, ao toca palmo e fazem o jogo de serce-serca, quilá-quilá. À tarde, na terra húmida, os rapazes jogam ao berlinde ou juntam-se em círculo para jogarem ao nventu ou palpita de cara/coroa. As raparigas arriscam na terra o jogo da malha, do surumba-surumba, trinta e cinco, etc. Com as chuvas e a terra molhada, passa-lhes a vontade de voltar à escola e aos cadernos.
Já é um hábito as aulas começarem em Janeiro, em vez de Outubro. Este ano, acrescem as paralisações por parte dos professores, que reivindicam cinco ou seis meses de salários em atraso. Fala-se que este ano lectivo será compensado, prolongando-se as aulas pela época das chuvas… Porém, as infra-estruturas não têm as mínimas condições durante as chuvas. Pais e crianças acabam por perder a paciência e o amor à escola. Ao invés da delinquência e do vandalismo, os pais preferem inserir os filhos no habitual esquema do chamado “trabalho infantil”, evitando males maiores de que ninguém parece querer falar. Não é a solução, mas sem evoluções no ensino, as alternativas são talvez duvidosas ou, na opinião de muitos, inexistentes…
Ainda assim, é grave, em pleno século XXI, assistir-se ao trabalho de menores. A tendência é associar estas práticas a sociedades atrasadas. Se fosse possível substituir o gosto e o orgulho perante o trabalho infantil, pelo gosto e pelo orgulho perante a educação científica, seria melhor o futuro das crianças. Mas, para que isso seja possível, o sector do ensino e o nível de vida da população têm que melhorar. Uma criança sem escola não conhece os seus direitos nem deveres, só faz aquilo que lhe disserem que é melhor, com medo de atrapalhar o seu futuro. E uma pessoa adulta e com fome não se lembra dos direitos de ninguém e fica mais violenta e corrupta.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Morido Cá - Presidente da CONAEGUIB


Morido Cá faz 25 anos a 10 de Junho de 2009, frequenta o 2º ano da Faculdade de Direito e é porta-voz da CONAEGUIB desde a sua fundação, em 2000. Entre 2001 e 2004 foi também presidente da Associação de Alunos do Liceu Dr. Agostinho Neto. Em Setembro de 2008 passou a presidente da Confederação Nacional das Associações de Estudantes da Guiné-Bissau.
Momentos antes de uma manifestação de alunos, que aconteceu a 29 de Abril de 2009, tivemos a oportunidade de entrevistar este jovem activista .

A:Qual é o papel da CONAEGUIB?
M: O papel da CONAEGUIB é contribuir, de uma forma satisfatória e enquanto potencial parceira do Governo, para a consolidação e edificação de um ensino de qualidade.

A: É fácil ser presidente desta associação?
M: Não é fácil ser presidente desta associação, porque temos um sistema de ensino muito fraco, onde os sucessivos Governos são incapazes de garantir um ensino de qualidade. Por este motivo, o desempenho desta função é de acrescida responsabilidade e coragem, no sentido de exigirmos meios que garantam um melhor funcionamento do ensino.

A: O que se pretende com a vigília que estão a organizar?
M: A vigília de hoje é uma forma de manifestarmos o nosso descontentamento face às sucessivas paralisações no ensino.

A: Considera que o ano lectivo deve ser considerado nulo, como muitos alunos já assumem?
Em termos políticos dificilmente o ano lectivo pode ser considerado nulo, embora em termos técnicos e pedagógicos já o seja de alguma forma.

A: Que papel se espera da política e do Estado relativamente à educação e ao ensino?
M: Cabe ao Governo a definição de políticas educativas e de estratégias de ensino consistentes. Considero que, na Guiné-Bissau, o obstáculo à definição e execução de uma estratégia de ensino consistente é sobretudo financeiro e económico. O papel da política é orientar a educação para a qualidade, mas em nenhuma parte do mundo é possível conseguir um ensino de qualidade sem meios.

A: Em Junho os guineenses vão às urnas. Acha que este factor terá influência no ensino?
M: Estamos na expectativa de que a questão do ensino seja objecto de discussão na campanha. Julgo que os candidatos não podem ficar calados em relação a este assunto. Embora não tenham directamente um papel na definição de políticas educativas, devem apelar, junto do primeiro-ministro, para a resolução deste problema.


Por:Ocante Ié; Mário Ié;
Telésfora salvador; Abrão Nanque; Justino Ampanail

Queremos ir à escola!

Na passada quarta-feira, 29 de Abril de 2009, realizou-se uma manifestação / vigília de alunos, na sede da CONAEGUIB (Confederação das Associações de Estudantes da Guiné-Bissau), à entrada da Escola Básica Salvador Allende. Entre as 08h00 da manhã e as 12h00, reuniram-se alunos de diferentes liceus, que, ao mesmo tempo que seguravam velas acesas, proferiam as seguintes palavras de ordem, alternadamente em Português e Crioulo:

No misti bai escola, suma nos vizinhos! Bo paga no pursor!

Queremos ir à escola, como os nossos (países) vizinhos! Paguem aos nossos professores!
. .Questionámos alguns dos manifestantes sobre o que esperavam conseguir com esta vigília:
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“Queremos manifestar o nosso descontentamento para que algo seja feito, de forma a haver aulas no futuro. Queremos aprender para podermos dar a nossa contribuição para o país. Os próprios ministros não poderiam ser ministros sem terem ido à escola. Julgo que os nossos governantes não ficarão indiferentes à nossa tristeza.” Midana Na Bidante (aluno da 8ª classe do Liceu Nacional Kwame N’Krumah)


“Estou a participar nesta manifestação porque precisamos das aulas. Queremos que o Governo assuma as suas responsabilidades perante os professores.” Patrícia Caetano de Pina (aluna da 7ª Classe do Liceu Dr. Rui B. Cunha)


“Devido às sucessivas greves nas escolas públicas, nós não temos aulas. Se pagarem aos professores, as coisas vão mudar”. Antonieta Gomes Có (aluna da 7ª classe do Liceu Samora Moisés Machel)


“Não pagaram aos professores, é por isso que alguns alunos não têm escola. No misti bai escola (Queremos ir à escola).” Panutche Cote (aluno da 5ª classe da escola Salvador Allende)

“Esta manifestação significa que de modo algum nos podemos conformar com esta situação. Pode ser que, com esta manifestação, alguém tente solucionar o nosso problema. Pode ser que o Governo pague aos nossos professores para garantir um melhor funcionamento das aulas.” Quintino Binante (aluno da 8ª classe do Liceu Dr. Agostinho Neto)
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Por: Ocante Ié; Mário Ié; Telésfora salvador; Abrão Nanque; Justino Ampanail

sexta-feira, 24 de abril de 2009

2 5 de Abril

Nas salas de aula e no recinto escolar do liceu é evidente a ausência de professores e alunos, que boicotam as aulas devido aos sucessivos atrasos no pagamento de salários aos professores do ensino secundário.
Ainda assim, conseguimos entrevistar, ao longo da semana, alguns elementos da comunidade escolar.

1 – Sabe explicar-nos o que se comemora no dia 25 de Abril em Portugal?
2 – Acha que o 25 de Abril interferiu na história da Guiné-Bissau? Se sim, em que medida?
3 – Este acontecimento tem hoje algum significado para si?
4 – Que relação existe actualmente entre Portugal e a Guiné-Bissau?
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Jonas Bacorim - professor e coordenador de História:

“Sei pouco sobre esta data, mas associo-a ao fim da luta pela libertação da Guiné-Bissau. Nesta data deu-se a independência da Guiné e dos restantes países colonizados por Portugal.
Se hoje estamos aqui como um país reconhecidamente independente, foi graças ao 25 de Abril. Quando chegaram aqui as notícias sobre o 25 de Abril, tomou-se consciência de que era o fim da guerra. Nessa altura, alguns cidadãos guineenses não queriam nada do que era português. Hoje reconhecemos que a língua portuguesa é fundamental para o país, por um lado porque nos diferencia dos países vizinhos e, por outro lado, porque nos dá acesso ao conhecimento, o que não acontece com o crioulo.
Graças à relação histórica entre Portugal e a Guiné-Bissau, é possível usufruir da Cooperação Portuguesa na área educativa, por exemplo com a formação dada pelo PASEG ao nível pedagógico, científico e informático.”



Mário Júlio Benante - director do liceu:

“Sobre o 25 de Abril, sei que se comemora em Portugal o fim de um longo regime ditatorial. O 25 de Abril definiu também o fim da colonização na Guiné-Bissau.
Independentemente de questões políticas ou profissionais, esta data tem um significado pessoal para mim, pelas relações próximas que tenho com alguns portugueses e com a comunidade portuguesa. Estou solidário com os cidadãos portugueses, que julgo deverem aproveitar esta ocasião para reflectir sobre os acontecimentos da altura e respectivas conquistas.
Apesar desta circunstância histórica, que foi a colonização, ficou o espírito de cooperação entre os dois países. ”
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Alunos do ensino secundário complementar:

Para este grupo de alunos, o dia 25 de Abril terá algum significado em Portugal, mas não sabem bem explicar qual... Depois de referirmos o 25 de Abril como o fim de uma ditadura em Portugal e como o fim da colonização, os alunos declararam reconhecer o assunto. Valdo, aluno da 10ª classe, defende que “a língua portuguesa é a maior marca da relação entre Portugal e a Guiné, sendo importante porque é a mesma língua que se fala noutros países, como Cabo Verde, Angola, Brasil ou Moçambique.”
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Por. Domingos; Justino Ampanail; Justino Yé

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O papel das mulheres na sociedade guineense

Porque é que as mulheres “desistem” mais facilmente dos estudos?
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No dia 30 de Janeiro, data da morte da combatente Titina Silá, comemora-se o Dia Nacional da Mulher Guineense. Está é uma data que pode servir para pensarmos sobre o papel da mulher na sociedade guineense e para reflectirmos sobre os motivos que estão por trás de algumas situações de desigualdade de género no nosso país. Podemos perguntar, por exemplo, por que motivo há mais raparigas do que rapazes a desistirem da escola? Para respondermos a esta questão, falámos com algumas mulheres que trabalham perto do nosso liceu. No entanto, e para além das experiências pessoais destas mulheres, há outras questões que também devem ser abordadas, pelo que entrevistámos duas mulheres de destaque na defesa dos direitos da mulher guineense: Urcelina Gomes, presidente do Instituto da Mulher e Criança e Fernanda Pinto Cardoso, jornalista*.
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Rosa Joaquim tem 39 anos, é vendedora de sandes e doces em frente ao Liceu Dr. Rui B. da Cunha, no qual é também funcionária de limpeza. Concluiu a 4ª classe, mas não pôde prosseguir os estudos porque segundo os homens grandes da tabanca Patchi Iala, onde cresceu, as mulheres que estudavam não poderiam ser boas mulheres, pois não iriam obedecer aos maridos nem dar valor aos trabalhos domésticos e à lavoura. Aos treze anos os pais deram-na em casamento a um tio. Na altura tinha outro namorado, mas desistiu dele e decidiu aceitar o casamento forçado porque não queria ficar sem ninguém nem ser rejeitada pela família.
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Aissatu Baldé também é vendedora, tem 25 anos e é a primeira mulher do seu marido. O pai morreu quando era pequena, por isso foi educada pela mãe e pelos tios, que a proibiram de ir à escola. Nunca estudou, apesar de o ter pedido várias vezes. Aos doze anos foi dada em casamento. Na altura vivia em Mansoa e conseguiu refugiar-se em casa de uma tia, em Gabú, durante um ano. Os tios foram buscá-la com treze anos, fizeram-lhe a djanfa e levaram-na ao muro (feiticeiro), que conseguiu convencê-la a casar. Tem dois filhos e quer que eles estudem sem problemas e que aprendam muitas coisas.

Filomena Moreira tem 34 anos e é professora no Liceu Rui Cunha. Formou-se em História e Geografia, mas é com alguma tristeza que lembra o ano em que teve que suspender os estudos, na 9ªclasse, com 17 anos, porque ficou grávida. Não era permitido a uma menina grávida frequentar a escola durante o dia, só à noite. Apesar disso, Filomena não considera que factores religiosos ou culturais, como a sua etnia, tenham definido o seu percurso de vida, mas sim a sua força de vontade.

Augusta Té é funcionária num liceu de Bissau, tem 40 anos e nunca foi à escola. Os pais não a autorizaram a ir à escola e reservaram-lhe um casamento tradicional, com um homem 30 anos mais velho do que ela. Resignou-se à sua sorte e teve sete filhos, um dos quais já faleceu. Entretanto o marido morreu e voltou a casar com outro homem, desta vez à sua escolha.

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Dauda Pires, Telésfora Salvador, Midana Sampa,
João Gomes, Josefa Bassim, Justino Ié
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*Entrevistas publicadas em primeira mão no jornal Nô Pintcha, em 30 de Janeiro de 2009, por ocasião do Dia Nacional da Mulher Guineense

Jornalista Fernanda Pinto Cardoso

Jornalista Fernanda Pinto Cardoso
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Fernanda Pinto Cardoso nasceu em Bissau a 26 de Maio de 1964. Licenciou-se em Jornalismo Internacional em Moscovo e estagiou no CENJOR (Centro de Formação para Jornalistas) em Lisboa. É um dos rostos da Televisão da Guiné-Bissau (TGB), que dá a conhecer aos guineenses as principais notícias nacionais e internacionais da actualidade.

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A: Considera que na Guiné-Bissau existe igualdade entre homens e mulheres?
FC: A mulher guineense tem um grande caminho a percorrer para acabar com a desigualdade de género. A nível político, por exemplo, em termos de lugares de decisão há várias situações que podemos apresentar como deficitárias no que respeita à representatividade feminina, como o caso da Assembleia Popular. Também ao nível da formação do governo, em cerca de 20 ministérios geralmente contamos com 5 mulheres, o que deixa claro o desequilíbrio entre a representatividade feminina e masculina.
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A: Porque é que, na sua opinião, não há mais mulheres a desempenhar cargos de decisão?
FC: Os cargos políticos são definidos politicamente. Na minha opinião são os próprios partidos políticos que não estão a dar importância às mulheres, pois não incluem essa questão nos seus estatutos. Outro problema relevante são as lacunas ao nível da escolarização das mulheres. Há uma grande percentagem de analfabetismo feminino na Guiné-Bissau. Este factor impede a igualdade de circunstâncias entre homens e mulheres.
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A: Que motivos podem ser apontados para o facto de as raparigas desistirem mais facilmente dos estudos que os rapazes?
FC: As raparigas desistem mais facilmente dos estudos do que os rapazes. Isto está relacionado com várias questões, como a zona de residência, a etnia ou a religião das famílias. A Guiné é um país rico em termos de diversidade étnica, cultural e religiosa. Cada etnia tem as suas regras e há etnias que dão preferência aos rapazes. A própria localização da escola fica muitas vezes longe da tabanca, pelo que os pais se inibem de deixarem as filhas frequentar a escola. Por outro lado, em termos de lides domésticas, é tradição as raparigas ocuparem-se destas funções. Mas tem-se feito um trabalho de sensibilização junto dos pais e tem-se visto a questão das acessibilidades para a escola. Em termos de parcerias internacionais, o papel do Programa Alimentar Mundial, por exemplo, também tem sido importante, nomeadamente com o incentivo das cantinas escolares, tanto para as raparigas como para os rapazes e até aos pais. O objectivo é diminuir o abandono escolar.
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A: Existem mulheres de referência na Guiné-Bissau e em África?
FC: Apesar do analfabetismo feminino generalizado, também temos casos de mulheres líderes na Guiné-Bissau, que deram provas de grande capacidade. Cármen Pereira foi presidente da Assembleia Nacional Popular, Filomena Tipot foi Ministra das Forças Armadas, ambos lugares tradicionalmente desempenhados por homens. Ao nível de África, podemos também referenciar a Presidente da República da Libéria, que é mulher. Fora da Política, em termos empresariais, na saúde e ensino, também há outras mulheres podem fazer algo pelo país se tiverem oportunidade.
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A: O que é que pode ser feito para aumentar a representatividade feminina em cargos de decisão?
FC: Primeiramente é preciso que os partidos mudem os seus estatutos internos, de forma a privilegiar a igualdade e equidade no seio do partido. A Plataforma Política da Mulher tem vindo a reivindicar esta mudança. Esta plataforma é um grupo criado por mulheres parlamentares da CPLP, da UEMOA, da própria sociedade civil e dos partidos políticos, com o objectivo de fazer pressão junto dos próprios partidos políticos e de promover a mulher em diversas áreas. Por exemplo, durante o período eleitoral a Plataforma tentou exigir a obrigatoriedade de uma quota de 40% de mulheres nas listas de candidatos a líderes da nação. Infelizmente nãotivemos o resultado que queríamos, mas a Plataforma não se desencoraja perante estas dificuldades, porque ainda há um longo caminho a percorrer. Tentamos fazer lobby para a inclusão de mais mulheres nos cargos de decisão.
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A: Como se sente quando uma mulher é chamada a desempenhar um cargo?
FC: É um orgulho quando uma mulher é chamada a desempenhar um cargo político, sobretudo quando estamos perante uma mulher à altura do cargo. Porque também é bom dar o cargo a quem o merece. Não se trata só de dar oportunidades às mulheres, mas sim de dar oportunidades às mulheres que as merecem.
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A: Na comunicação social é posta em prática a igualdade entre homens e mulheres?
FC: Na TGB, por exemplo, somos poucas mulheres, embora tentemos criar espaços para dar voz e incluir as mulheres. Mas realmente não existe um grupo de género dentro da comunicação social. Há um trabalho a fazer nesse sentido, até porque a maioria dos jornalistas guineenses são homens. Isto nota-se ao nível dos altos cargos da comunicação social e também até no próprio tipo de reportagens publicadas.
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A: Existe algum apelo que seja importante fazer passar relativamente a este tema?
FC: Existe um documento internacional, ratificado pela Guiné-Bissau, que é a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, o qual diz tudo sobre os direitos da mulher. É preciso pôr esse documento em prática, aplicar esta convenção. Neste momento, faço um apelo ao Estado da Guiné-Bissau para fazer aplicar esse documento. Quando isso acontecer, quando esse documento for posto em prática, então os direitos das mulheres serão respeitados.
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Telésfora Salvador, Midana Sampa, Josefa Bassim, Ocante Ié

Urcelina Gama Gomes - presidente do IMC

Urcelina Gama Gomes, presidente do Instituto da Mulher e Criança

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Urcelina Gomes nasceu em Bissau a 12 de Março de 1966. É jurista de profissão e está há quatro anos no Instituto da Mulher e Criança. Também gosta de moda e, nos tempos livres, é estilista.

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A: Qual é a razão do aparecimento do Instituto da Mulher e Criança?
UG: Havia necessidade de criar uma instituição, por parte do Estado, que tratasse de todos os assuntos da mulher e da criança. Por isso foi fundado este instituto em Fevereiro de 2000. O papel do instituto é fazer respeitar os direitos das mulheres e das crianças na sociedade guineense.

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A: Como é que protegem os direitos das mulheres?
UG: A melhor forma de proteger a mulher e a própria criança é ensinar-lhes a conhecerem os seus direitos e deveres e como é que devem protegê-los.

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A: É possível fazer-nos uma caracterização da mulher na sociedade guineense?
UG: A mulher guineense é batalhadora e, ao mesmo tempo, sofredora e triste. A pobreza é a principal causa deste sofrimento e tristeza.

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A: São as mulheres que procuram a instituição ou é a instituição que vai ao encontro das mulheres?
UG: Algumas mulheres procuram a instituição, mas muitas vezes é o instituto que vai ao encontro das mulheres depois de uma denúncia. Apoiamos no caso de violações e fazemos o encaminhamento desses casos para a justiça. Também actuamos no apoio à maternidade.

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A: No caso das mulheres que procuram a instituição, quais são as razões mais frequentes que as levam a dar esse passo?
UG: É a violência doméstica. A maior parte dos acompanhamentos que fazemos estão relacionados com os desentendimentos entre homem e mulher. Fazemos um trabalho de mediação, baseado no diálogo e na sensibilização. Por outro lado, também temos uma grande preocupação com a violência contra as crianças. Há casos de crianças violadas e espancadas. Tivemos um caso há pouco tempo de uma criança que foi espancada por causa de mil francos.

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A: Quais são as dificuldades que a instituição encontra?
UG: Às vezes há resistência e somos obrigados a ser acompanhados pela polícia, porque o nosso papel não é fazer a justiça mas sim orientar tanto o homem como a mulher. Por parte das mulheres, o instituto é bem acolhido. Às vezes as mulheres sofrem em silêncio há muitos anos e aproveitam a oportunidade para exteriorizarem e até resolverem os seus problemas. A maior parte das mulheres tem interiorizado o princípio de que tem que sofrer no casamento para criar bem os seus filhos. São educadas para sofrer. Esta mentalidade está muito longe de ser mudada. Preocupamo-nos em estar presentes e em apoiar. Sabemos que, apesar de haver um longo caminho a percorrer, não podemos agir a qualquer custo e correr o risco de perdermos a confiança conquistada. Não queremos que o instituto seja visto como estando a orientar mal as mulheres, tem que ser um trabalho contínuo.

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A:A mudança de mentalidades passa pela educação, mas a Guiné-Bissau tem uma elevada taxa de analfabetismo e de abandono escolar feminino. Qual é a razão deste fenómeno?
UG: As raparigas desistem mais facilmente dos estudos porque são obrigadas a dedicar-se às tarefas domésticas. Muitas raparigas são levadas para o casamento aos doze ou catorze anos e muitas vezes já foram dadas em casamento à nascença. Há etnias em que é tradição reservar uma filha para o tio. As pessoas alegam que é uma questão de cultura e tradição e que não se pode ir contra estas práticas. O nosso objectivo é mudar esta mentalidade, mas é um trabalho árduo e que não tem resultados de um dia para o outro.

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A: Sente que o balanço do vosso trabalho é positivo?
UG: Já conquistámos muitos aspectos positivos. Sentimos que há sempre algum sucesso na nossa intervenção, sem que haja qualquer violência porque a violência não resolve nada. Procuramos incutir o princípio da calma e do respeito.

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A: Para finalizar, há algum caso que nos queira relatar? Como é que o instituto ajudou a resolver a questão?
Tivemos um caso curioso, em que um homem deixou a mulher, não queria deixá-la ficar com o filho e passava em frente da sua casa na companhia da segunda mulher. A primeira mulher veio ter connosco e nós decidimos chamar o marido, que nos disse que já não amava a mulher. Dissemos ao marido que tinha esse direito mas que procurasse agir de uma forma mais respeitosa, o que o fez reflectir e mudar de atitude. Conclusão… mais tarde acabaram por ficar juntos novamente e às vezes vêm visitar-nos.
Há ainda outra questão delicada na Guiné, que é a questão da mutilação genital feminina. Temos aqui uma pessoa, que trabalha connosco, que já passou pelo mesmo e por isso consegue fazer um trabalho de sensibilização mais eficaz, porque faz parte dessa cultura e consegue ultrapassar o secretismo que envolve estas práticas.

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Djamila Vieira, Abraão Nanque, Mário Albino Ié